sábado, 10 janeiro , 2026

Quando o medo rezava comigo

Nasci e cresci em uma família onde meu pai não acreditava em nada, e minha mãe acreditava em tudo.
Minha avó materna foi a pessoa mais supersticiosa que conheci. Mamãe, a filha mais velha, carregou um fardo que até hoje me compadeço ao lembrar — um peso desnecessário que sua própria mãe colocou sobre seus ombros.

Poderia mamãe ter se rebelado, como fizeram seus irmãos homens? Poderia. Mas ela e as duas irmãs, perdidas entre doze filhos homens, não tinham forças para enfrentar a mãe nem os irmãos.

Meu avô tinha o título de “bom será”, e pelo que aprendi, era aquele tipo de homem sem voz para nada — especialmente para contestar a esposa, que colocava as crendices acima de qualquer razão.

O medo das tempestades foi um dos legados mais tristes que herdamos. Papai Bastava o céu escurecer para que minhas brincadeiras na rua fossem interrompidas às pressas. Com todos já dentro de casa, começava o ritual: portas e janelas fechadas, espelhos cobertos com lençóis, talheres, tesouras e tampas de panelas jogadas nas gavetas — tudo na esperança de afastar os raios.

Depois, o silêncio. Mamãe pedia que todos se calassem. Era uma hora difícil para nós, crianças acostumadas à bagunça e às guerras de travesseiros. Ali, porém, de mãos dadas, rezávamos.

Quando os trovões se intensificavam, vinha o golpe final para o coração de uma criança que via naquela mistura de luz, escuridão e estrondos uma grande diversão:

minha avó, sentada na cadeira, ordenava que ninguém respirasse fundo — “isso atrai os raios”, dizia. Demorei mais de quarenta anos, e muitas sessões de terapia, para conseguir respirar em paz durante uma tempestade.

Outro tempo de dor para minha alma era o Dia de Finados. Que cruz, meu Senhor!

Mamãe contava que em sua infância, nesses dias, ninguém podia sair de casa — era preciso esperar a “procissão dos mortos”. Tinha pavor, e sua mãe reforçava o medo com ameaças: quem desobedecesse seria punido. Janelas fechadas, luzes baixas, e nada de espiar pelas frestas — quem ousasse olhar, no dia seguinte encontraria um osso na porta da casa. Papai dizia que aquilo tudo era bobagem, mas nós, as crianças, escutávamos as histórias com fascínio e medo.

Cresci com grande antipatia dessas datas. Quando soube que meu filho poderia nascer próximo ao dia de finados, sofri em silêncio. Como eu, que carregava tanto pavor dessas comemorações, poderia dar à luz justamente nesse período?

Mas a vida tem seus encantos. Não posso negar que, na infância, o dia 2 de novembro também tinha seu lado mágico: limpar o túmulo da família, ver a cidade inteira reunida no cemitério — aquilo, para meus olhos de menina, parecia uma grande festa. Perdia apenas para a procissão do Nosso Senhor dos Passos, em Imaruí, quando minha avó levava a família toda para pagar promessas.

Sim, mamãe e vó Pedrinha faziam as promessas, mas quem as cumpria eram os outros — os que recebiam a graça. Esse ciclo se encerrou quando o Caio, com sua sabedoria precoce, colocou as regras do jogo às claras.

E assim, com o nascimento de Caio (no Dia das Bruxas) e de Marina, que chegou ao mundo sem vínculo com datas ou superstições — simples, livre, como é até hoje — os ciclos de medo começaram a se desfazer.

Para eles, omiti meus medos e me mostrei a mãe mais corajosa do mundo. Só depois, quando os senti seguros, contei-lhes minhas histórias — e a cura começou a acontecer, devagarinho.

Lembrei-me de tudo isso agora, porque no último dia dois de novembro comemoramos o primeiro aninho da nossa princesa Annie, que nasceu exatamente nessa data.

E foi lindo: minha afilhada escolheu o tema Día de los Muertos, a celebração mexicana vibrante e colorida da vida e da memória. Ao entrar no ambiente, minha alma sorriu.

Diante do altar preparado na festa, vi os retratos dos que partiram e senti saudade — mas uma saudade leve, sem o peso do medo. Hoje quero honrá-los não com lamentos, mas com a alegria e a intensidade do amor que sempre nos uniu.

Hoje sorrio, os trovões que um dia me calaram, anunciam a chuva boa.

Nos vemos nas próximas linhas.

 

 

 

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