Desde o dia 17 de fevereiro (quarta-feira de cinzas), a igreja proporciona a todo povo um tempo especial capaz de gerar mudanças significativas na vida de cada pessoa: o tempo da quaresma.
Nas Sagradas Escrituras, especificamente na profecia de Joel, encontramos o grande convite que Deus faz a nós: “voltai para mim com todo vosso coração” (Jl 2,12). Ciente desse clamor de Deus pela boca do profeta, a igreja nos propõe toda uma pedagogia de mudanças.
Vemos que toda mudança se dá a partir de pequenos passos e não de uma hora para outra. Ilustrando melhor a situação, podemos apresentar uma profissão: há todo um tempo de estudo e preparação para se conseguir chegar ao dia da formatura para que, a partir daquela data, uma nova frente de trabalho seja feita. Na quaresma, também acontece de maneira semelhante: há todo um processo formativo/pedagógico de preparação para um retorno para Deus através da liturgia (novenas nas casas, via-sacras, terços, orações, adorações, jejuns, gestos de caridade fraternos, etc.) para que, com a culminância na celebração da Ressurreição, possamos também nós, com Cristo, “ressuscitarmos” para uma nova vida.
O tempo da quaresma é um tempo privilegiado para vivermos mais acentuadamente o jejum, a penitência e a oração. O jejum nos educa para o domínio de si mesmos. Por isso, a igreja orienta para evitar o consumo de carnes vermelhas na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa. Paralelo ao jejum, está a penitência, que também caminha para a auto-disciplina, mas dá um passo além: a solidariedade. Abstendo-se de algum tipo de alimento, podemos fazer a doação dos mesmos às pessoas que não têm condições de tê-los em suas mesas. Aí é que está o belo, ou, sendo ousado, o verdadeiro sentido do jejum: o que deixo de usufruir alguém será beneficiado! Mas tudo isso pode ser difícil. Porém, é nos relacionando com Deus através da intensa vida de oração que conseguiremos romper algumas barreiras em nossa vida que nos impede de enxergar o rosto do outro e caminhar em direção a ele, seguindo as pegadas de Jesus. Sendo assim, estamos vivendo a dimensão relacional do ser humano num tríplice modo: jejum – consigo mesmo. Penitência/caridade – com os outros. Oração – com Deus.
Neste ano, a igreja do Brasil, através da Campanha da Fraternidade, nos propõe o estudo que gira em torno da temática da economia e vida, apontando que não podemos estar a serviço de Deus sendo escravos do capital. Todo capital que adquirimos, se não bem administrados, gera a forte tendência em nós de pensarmos que somos autossuficientes, bastando-nos por si mesmos, acabando por excluir Deus de nossas vidas e esquecendo o primeiro dos mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas.
Aproveitemos, pois, este tempo para fazer este processo pedagógico em nossas vidas para vivermos bem esses 40 dias de oportunidades de mudanças que nos levam à santificação através de um retorno para Deus.