domingo, 28 junho , 2026

Que tempos são esses?

Norman de Paula Arruda Filho
é Presidente do ISAE – Escola de Negócios, conveniado à Fundação Getulio Vargas, Professor do Mestrado em Governança e Sustentabilidade do ISAE/FGV, e Coordenador do Comitê de Sustentabilidade Empresarial da Associação Comercial do Paraná (ACP)

Há pouco mais de um mês, em Curitiba, a convite da Unesco, tive a oportunidade de encontrar com outros pensadores e discutir sobre o Futuro da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. Frente à minha trajetória de mais de 20 anos trabalhando com educação, alguns pontos abordados naquele encontro me levaram a repensar a questão.

Em tempos de globalização, nosso cotidiano é carregado por uma avalanche de informações. Reviravoltas políticas, crises humanitárias, mudanças econômicas, acidentes naturais, novidades tecnológicas formam um turbilhão de notícias que preenchem nossas mentes, não nos deixando refletir sobre que tempos são esses.

Quando pensamos em educação, os dados assustam. São tempos em que o Brasil está no grupo dos 10 piores sistemas educacionais, com alarmantes 2,5 milhões de crianças e jovens fora da escola. Tempos em que somos a 56ª nação no ranking que avalia o desempenho dos países quanto aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, ficando atrás de nossos vizinhos Argentina, Chile e Uruguai. Tempos em que é preciso que uma menina de 20 anos, Muzoon Almellehan, refugiada Síria, relembre ao mundo que “a educação é a melhor arma para nos ajudar a lutar por nossos direitos e alcançar nossos sonhos”.

As articulações desenhadas naquele encontro deixam claro que existe um real interesse e uma forte movimentação que almeja evoluir de forma mais prática em projetos que objetivam tornar a educação não só acessível às diversas camadas da sociedade, mas garantir sua qualidade e capacidade de promover mudanças positivas. Nesse sentido, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ou Agenda 2030 da ONU – ressaltam a necessidade da promoção de uma educação inclusiva, igualitária e baseada nos princípios de direitos humanos e do desenvolvimento sustentável.

Não considerando apenas os anos primários, mas dedicando atenção especial também à educação técnica, profissional e superior no sentido de desenvolver nos jovens e adultos habilidades e competências à altura das demandas da era de inovação em que vivemos. Como membro do Pacto Global desde 2004 e participante da força tarefa que traçou os Princípios para a Educação Executiva Responsável – ambas iniciativas da Organização das Nações Unidas – compartilho de verdadeiro desafio que consiste em aproximar as escolas das empresas.

A educação para a liderança globalmente responsável exige dedicação, aculturamento, constante demonstração e valorização de resultados intangíveis. Alinhar os discursos entre o que é pauta nas escolas e universidades e as práticas corporativas é primordial para alcançarmos uma sociedade mais engajada e atenta aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Falar em educação do futuro é pensar e promover a capacitação e o empoderamento para novos tempos. Mais que isso, a educação para o desenvolvimento sustentável é a ponte para estilos de vida sustentáveis e para o alcance de outros fatores fundamentais como os direitos humanos, a igualdade de gênero, a promoção de uma cultura de paz e não-violência, a cidadania global e a valorização da diversidade cultural.

A educação tem o poder de transformar realidades e mudar o curso da história. É fundamental para a construção de um mundo mais justo e sustentável. Um mundo fundamentado em um novo tempo que independe exclusivamente de questões financeiras e interesses individualistas. Um tempo em que a educação seja, verdadeiramente, prioridade. Nos discursos políticos é pauta sempre presente, porém na prática, muitas vezes, acaba desvalorizada e esquecida em detrimento a outros interesses.

Em tempos de engajamento social, acompanho o clamor cada vez mais forte da população por mais atenção à educação. Porém, é tempo de evoluir e transformar a realidade do Brasil. A sociedade demanda por respostas mais contundentes e exige mudanças reais.

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