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Polícia Civil abre inquérito sobre acidente que matou cinco pessoas na Serra; Epagri/Ciram previa chuva, temporais e rajadas entre 60 e 100 km/h em Santa Catarina
A queda de um helicóptero que deixou cinco mortos em Urubici, na Serra Catarinense, passa a ser investigada também pela Polícia Civil de Santa Catarina. Além da apuração criminal, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) trabalha para identificar os fatores que contribuíram para a tragédia. O acidente ocorreu em um dia marcado por forte instabilidade atmosférica no Estado, com previsão de chuva, temporais e rajadas intensas de vento.
A aeronave Bell 430 havia decolado de Porto Belo, no Litoral Norte, com destino a São Joaquim. O contato foi perdido na segunda-feira (21), e os destroços foram encontrados na terça-feira (22), em uma região de mata e relevo acidentado de Urubici. As cinco pessoas que estavam a bordo morreram.
Entre as vítimas estava o cantor Rick Sollo, da dupla Rick & Renner, além do empresário Bruno Avelar, do videomaker Paulo Soares, do piloto e do copiloto. A operação de buscas mobilizou cerca de 40 bombeiros, cães de busca, drones com câmeras térmicas, viaturas e aeronaves de apoio.

Polícia investiga eventual responsabilidade
A Delegacia de Polícia da Comarca de Urubici instaurou inquérito para esclarecer as circunstâncias da queda e verificar se alguma conduta humana, dolosa ou culposa, pode ter contribuído para o acidente.
A abertura do procedimento ocorre em razão da natureza violenta das cinco mortes. A Polícia Civil deverá realizar diligências, reunir documentos e analisar elementos que possam apontar eventual responsabilidade criminal.
A investigação terá caráter subsidiário em relação ao trabalho desenvolvido pelo CENIPA, órgão especializado na investigação técnica de acidentes aeronáuticos. A finalidade da apuração aeronáutica é identificar os fatores que contribuíram para a ocorrência e produzir recomendações destinadas à prevenção de novos acidentes.
Até o momento, não há conclusão oficial sobre a causa da queda.

Frente fria provocava instabilidade em Santa Catarina
As condições meteorológicas registradas no Estado naquele dia deverão estar entre os elementos analisados pelos investigadores.
A previsão divulgada pela Epagri/Ciram para segunda-feira (21) indicava tempo instável em Santa Catarina, com alto risco de temporais isolados, chuva intensa, raios, vendavais e possibilidade de granizo. O Estado estava sob influência da passagem de uma frente fria, combinada com calor e intenso transporte de umidade.
O órgão meteorológico indicava ventos entre noroeste e sudoeste, com rajadas mais fortes que poderiam variar entre 60 e 100 km/h em Santa Catarina. O dado representa uma previsão para áreas do Estado e não significa que essa velocidade tenha sido necessariamente registrada no ponto exato da queda.
O Instituto Nacional de Meteorologia também havia emitido alerta para tempestades na Região Sul durante a segunda-feira, associado à atuação de um sistema de baixa pressão e de uma frente fria.
Relatos das equipes que trabalharam nas buscas apontam que as condições meteorológicas adversas dificultaram a operação. Em determinados momentos, o emprego de aeronaves precisou aguardar condições mais favoráveis, enquanto as equipes terrestres enfrentavam mata fechada, terreno montanhoso e estradas prejudicadas pela chuva.
Serra tem características que exigem atenção na aviação
O relevo da Serra Catarinense acrescenta desafios à navegação aérea, especialmente em condições de baixa visibilidade e ventos fortes.
A região de Urubici e São Joaquim é formada por áreas montanhosas, vales, escarpas e grandes variações de altitude. Em situações de instabilidade atmosférica, nuvens baixas e nevoeiro podem reduzir rapidamente a visibilidade entre montanhas.
O piloto Alexandre Oenning, que atua há mais de uma década na Serra Catarinense, explicou à Folha de S.Paulo que as condições meteorológicas na região podem sofrer alterações muito rápidas. Segundo ele, a interação do ar mais quente vindo do litoral com o ar frio das áreas elevadas favorece a formação de nuvens, enquanto ventos próximos às encostas também exigem atenção dos pilotos.
Essas características, porém, não permitem estabelecer relação direta entre o tempo e o acidente de Urubici. Somente a investigação técnica poderá determinar se vento, visibilidade, chuva ou qualquer outro fator meteorológico tiveram participação na ocorrência.
Destroços estavam em área de difícil acesso
As primeiras buscas se concentraram na localidade de Vacas Gordas, em Urubici, apontada inicialmente como uma das áreas relacionadas à última posição conhecida do helicóptero. Outro ponto de procura foi estabelecido nas proximidades de Morro Agudo, a partir de sinais de telefonia celular.
As duas regiões ficavam cerca de 30 quilômetros distantes uma da outra. O relevo montanhoso, a vegetação fechada e as condições das estradas aumentaram a dificuldade para a chegada das equipes de resgate.
Os destroços foram localizados na terça-feira (22). A partir daí, começaram os trabalhos de retirada das vítimas, perícia e coleta de elementos destinados às investigações.
CENIPA busca reconstruir os últimos momentos do voo
A investigação aeronáutica pode envolver a análise da trajetória realizada pela aeronave, informações meteorológicas, comunicações, condições do helicóptero, documentação, manutenção, procedimentos operacionais e atuação da tripulação.
O helicóptero envolvido era um Bell 430, fabricado em 2001. Consulta realizada após o acidente apontava situação regular no sistema da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com Certificado de Aeronavegabilidade válido até agosto de 2027. A aeronave também possuía autorização para operações noturnas.
Ter documentação regular, entretanto, não antecipa qualquer conclusão sobre os fatores que provocaram o acidente.
Com a investigação ainda em fase inicial, Polícia Civil e CENIPA deverão trabalhar em frentes distintas. A primeira busca esclarecer eventual responsabilidade criminal. A segunda procura reconstruir tecnicamente a ocorrência e identificar os fatores que contribuíram para a queda.

