Início Geral Rota dos Butiazais: Ameaça de extinção será debatida em sessão do Comdema

Rota dos Butiazais: Ameaça de extinção será debatida em sessão do Comdema

Sessão extraordinária ocorre no próximo dia 15 na Câmara de Vereadores de Imbituba. Instrução Normativa que trata sobre o transplante do Butiá é questionada por entidades que defendem a preservação da espécie na região.

Lysiê Santos
Imbituba

Um frutinho bem conhecido no litoral Sul está ameaçado de extinção. Famoso por seu sabor adocicado, consumido in natura, sucos, picolés e até como complemento na produção artesanal da cachaça, o Butiá que possui mais de 20 espécies distribuídas em países da América do Sul, já tem sido considerado fruto raro na região. Um dos principais motivos é o avanço das áreas agrícolas e urbanas.

Com o intuito de preservar essa cultura e subsistência das comunidades que vivem próximo aos butiazais, as entidades rurais de Imbituba e região têm lutado pela conservação da espécie. No próximo dia 15, a sessão extraordinária do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) de Imbituba abrirá espaço para a discussão da Instrução Normativa nº 3/2016 que trata do transplante da palmeira de butiá no município.

De acordo com a representante do projeto Butiá Catarinensis, Gláucia Maindra, o transplante de plantas de butiá é um risco para a preservação do ecossistema da espécie e, consequentemente, para as comunidades tradicionais e extrativistas que utilizam esse recurso. “Torna-se fundamental discutir de forma ampla, democrática e transparente este tema. É fundamental, também, que se considere os resultados de pesquisas já realizadas sobre o manejo e conservação de butiazais, apresentadas no curso ministrado recentemente pelos pesquisadores da Embrapa Clima Temperado, da UFSC, CEPSul/ICMBio e IFSC – Garopaba que comprovam tal situação”, esclarece.

Coletores e defensores da espécie realizam ações com o intuito de mobilizar a população a participar do encontro que será realizado na Câmara de Vereadores às 17 horas.

Comunidade reivindica suspensão de Instrução Normativa
Para sensibilizar o público em prol do uso e manejo consciente do Butiá e dar visibilidade aos seus usos gastronômicos e artísticos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), juntamente com a ICMBio – Apa da Baleia-Franca, Associação Comunitária Rural de Imbituba (Acordi), Instituto Federal de Santa Catarina (Ifsc) Garopaba e o Projeto Butiá Catarinensis promoveram o 4º Seminário da Rota dos Butiazais – Butiás: do colchão de crina à Rota dos Butiazais no último dia 18 de fevereiro, em Imbituba. Durante o evento, os participantes elaboraram uma carta ao Comdema solicitando mudanças na preservação da espécie ameaçada de extinção.

O documento foi entregue ao conselho pelas entidades que reivindicam o mapeamento dos butiazais no município, definindo claramente o que são as malhas e onde estão localizadas estas formações em na cidade portuária. “Entre outras medidas de conservação que possam vir a ser geradas nestes butiazais, é fundamental que não se permitam transplantes a partir destas áreas. Este mapeamento pode ser implementado em parceria com a ICMBio – APA Baleia Franca, atualmente em processo de elaboração participativa de seu plano de manejo. Neste mapeamento, é importante identificar mecanismos para ampliar a conectividade e os corredores ecológicos entre butiazais”, relatam os especialistas da Embrapa.

O que solicita a carta das entidades ao Comdema:
• Suspensão da Instrução Normativa nº. 3/2016;
• Criação imediata de um Grupo de Trabalho para a construção de nova Instrução Normativa que atenda os critérios técnicos e científicos;
• Durante a reformulação do documento, solicitamos a proibição de liberação de licenças para o transplante do butiá;
• Monitoramento independente da IN, do corte e a queimada desta espécie;
• Representatividade das comunidades tradicionais junto ao Comdema;

Coletores preservam tradição em Imbituba
De acordo com a integrante da Cadeia Solidária das Frutas Nativas do Rio Grande do Sul, Mariana Oliveira Ramos, o uso de espécies nativas é uma alternativa importante de conservação ambiental, geração de renda e enriquecimento da alimentação das populações locais e regionais.

O coletor de Imbituba Sebastião Silveira Soares, de 63 anos, é um consumidor do butiá desde a infância. “Pegávamos o butiá pra fazer suco e hoje é um complemento da renda”, conta. Atualmente, ele e outros coletores comercializam o fruto direto com a indústria local de picolés e sorvetes, o que complementa a renda da família que sobrevive da pesca e outras atividades. “O butiá faz parte da nossa rotina e é preciso pensar no amanhã e preservar essa espécie”, ressalta.

Reginaldo Marques Bento, de 37 anos, acompanha o pai desde cedo na colheita do butiá. A família também repassa a produção para sorveterias locais. Ele revela que grande parte da plantação nativa foi destruída. “A preservação é fundamental. Muitos pés foram queimados para plantação de outras espécies”, dispara.

Indústria de sorvetes investe no uso do butiá
O butiazal dos Areais da Ribanceira, em Imbituba, é um exemplo especial de conservação pelo uso devido ao manejo realizado pela comunidade local de coletores ao longo de várias gerações. Além da colheita do fruto, os artesãos produzem chapéus, cestas, colchões e vários outros produtos artesanais oriundos de suas folhas e coquinhos, além da polpa, suco, geleias, cachaça, elaborados com os frutos. Um dos destinos que tem mantido a renda dos coletores é o uso do butiá na fabricação de picolés e sorvetes.

De acordo com o proprietário da Nectagel de Imbituba, Adriano Nascimento Siqueira, durante a safra a empresa chega a consumir quase mil quilos do fruto. Há 12 anos, a Nectagel lançou o picolé de butiá que chama a atenção dos consumidores por ser um produto artesanal a base da fruta. “Compramos o butiá direto dos coletores e processamos na fábrica. É o único sabor totalmente in natura”, explica. O empresário detalha que a cada ano está mais difícil manter a produção pela extinção da espécie. “Infelizmente o butiá tem sido desvalorizado na nossa região e está cada vez mais escasso no mercado”, pontua.

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