quarta-feira, 1 julho , 2026

SEXO POR COMPUTADOR

Um tema que cabe repetir, e que repito, por tão essencial. Todas as pesquisas ao redor do planeta chegam à mesma conclusão: sexo, fantasiar sobre a prática de sexo, está entre os pensamentos que mais passam pela cabeça de qualquer um de nós; no correr da existência, é o que mais nos habita a imaginação, é o devaneio que mais nos dá prazer.

O mundo inteiro deseja sexo, incluindo eu e quem me lê. Contudo, sexo é o que há de mais censurado. Parece que nada se vigia tanto, nada se controla tanto quanto o órgão sexual feminino. Mas, também as “partes” masculinas sofrem censura. Há uma geografia do corpo: todo ele pode ser exposto; “aquele” pedacinho, contudo, não. Sexo, não. Sexo não pode.

Investigações de laboratório confirmam o que sabemos na prática: a satisfação que o sexo proporciona. Nada é mais estressante do que a carência sexual; nada é mais prazeroso, física e psiquicamente do que a relação sexual. Não obstante, muita gente – mais gente do que se imagina – complica-se, seja para falar do assunto, seja para realizar o assunto.

Desconfio que esta seja a raiz, sabida mas não assumida, da maioria dos males emocionais da nossa época: comer em excesso, negação da vida pela depressão, noites na internet, abuso de drogas. Há um fundo de insatisfação sexual em tudo isso. Duvido muito que alguém fique cavoucando a web ou vá atacar a geladeira em estado de afeição e prazer sexual.

Penso que o conflito instalado na maioria das pessoas é entre o querer e o (suposto) não dever. O mundo, sobretudo após a ascensão de Constantino à condição de imperador romano (288 a 337), foi interditos e repressão. Em seu governo, a fé cristã se tornou a religião oficial do Império; com ela veio a restrição aos prazeres da carne e o elogio à abnegação e aos sacrifícios.

Por toda a Idade Média e mesmo durante o Renascimento as práticas sociais dominantes foram de sexualidade contida, ocultada, culpada. Não era incomum as pessoas açoitarem-se pelas ruas. Isso só foi controvertido, na Europa em 1789 (Revolução Francesa), no Brasil, em 1889 (República – a Constituição de 1824 declarava o catolicismo como religião do Estado).

A repulsa social mais ostensiva a este estado de coisas aconteceu apenas na segunda metade do século passado. Sobretudo a partir da década de 1960, a juventude – as mulheres principalmente – começou a romper uma ortopedia moral de séculos. O sexo deixou de ser “pecado”. Os desejos vieram à tona, venceram os freios conservadores e se estabeleceram.

Estes ímpetos de buscar o gozo da felicidade, contudo, se chegaram como solução para muitos, para a maior parte das pessoas vieram como problema. O fato de eu poder ver e sentir a liberdade de comportamento nos livros, no cinema, na televisão, no meu vizinho, no meu colega de escola, não quer dizer que eu a receba em mim com conforto, ou que eu a realize.

A liberdade está na minha frente, contudo, está no outro, não em mim. Já se pode, mas eu não posso. Uma parte pequena do mundo goza, a grande parte gostaria, mas não ousa gozar como se goza por aí. Por alguma razão sexo não se assentou nos hábitos gerais. Ou assentou-se, não, todavia, como liberdade apaziguadora, mas como conflito: menos prazer, mais ansiedade.

As pessoas procuram jeitos. Saem-se com podem. A internet parece ser evidência disso. Na solidão da noite, milhares de pessoas que não conseguem dizer pessoalmente de si e ouvir sobre o outro, seduzir e dar-se por sedução, vão para seus computadores. Algumas namoram nas telas, mas a maior parte mente para si mesma ou para alguém, ou namora com pornografia.

Encontro matéria já de uma década: “O Brasil é campeão mundial em acesso a conteúdo pornográfico na internet, com 55% dos internautas. A média mundial é de 41% – sendo que 58% são homens e 18%, mulheres” (Folhateen, 08jun09). Matéria relacionada informa que “63% dos jovens não discutem abertamente sexo em casa. Homens entre 18 e 24 anos consomem mais pornografia on-line: 61% dos internautas brasileiros” (FSP, 02jun10).

De lá para cá, uma reportagem (G1, 11ago15) que narra pesquisa cujos resultados não são pacíficos: “Mulheres brasileiras são as que mais veem pornografia – Levantamento põe Filipinas ao lado do Brasil (países no topo da catalogação de mais católicos do mundo) em 1º lugar”.  Ainda segundo o registro, “nos dois países 35% do consumo de pornografia é realizado por mulheres [a média mundial é 24%] e 65% pelos homens”.

Algo impede que certas vontades (envergonhadas) sejam realizadas na realidade, com outra pessoa, com declaração de gosto e consumação de ato. É impossível contar-se de todo, mas nos contamos menos do que é possível nos contar. Insegurança, angústia, culpa ou segredo (coisa a esconder) alimentam essa escolha. Se milhares de brasileiros, de jovens, inclusive, têm opção preferencial de gozo por computador, algo está errado.

Adultos deveriam pensar sobre isso por interesse próprio, pois sempre é tempo de reencaminhar as coisas. Pais deveriam refletir sobre isso no interesse dos filhos, pois sempre é tempo de encaminhar as coisas. Adultos ou jovens, inseguros, arredios e depressivos normalmente são vítimas de repressão. Às vezes, repressão que exercemos sobre nós mesmos. Que recomendaria eu a quem padece desse mal, além de psicanálise?

 Aos jovens: divirtam-se; sexo é mesmo legal. Aos adultos: repensem seus valores, suas bitolas ideológicas; algo aí não lhes está fazendo bem. Para com seus filhos: abram espaço ao diálogo, mas não se intrometam, não controlem. De algum modo haverá sexo. É um imperativo da vida. Nos meios libertários haverá mais sexo saudável; nos ambientes repressores, entre nada e alguma coisa, haverá onanistas na frente do computador.

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