Dentro e fora da imprensa (imprensa é a que imprime!) e do rádio – já que trabalhei em ambos -, sempre tive à cabeceira um desses enfeitiçados aparelhinhos que há quase um século nos trazem a informação em primeira mão. Logo, falar dos que construíram parte de sua história em Tubarão sempre é motivo de muita satisfação, ainda mais agora, quando chegamos a mais um Dia do Radialista (21 de setembro, última terça-feira). E, sendo ainda setembro, entendo que vale a homenagem.
E vou longe… vou lá para os final dos anos 50 e nos gloriosos anos 60 do século passado, quando, na Cidade Azul, o locutor de rádio era considerado um artista. – E eu estava só engatinhando na “latinha” lendo parte de historinhas infantis no programa do Zezinho Xavier, na Tubá.
Se eles, os papagaios de ouro, ganhavam bem ou não, é outra questão, mas que a popularidade era fantástica, isso era. Foi um reinado que durou pouco mais de dez anos, mas deixou sua marca pela larga audiência e comprometimento dos locutores com o seu público ouvinte. A Tubá estava instalada na cabeceira da ponte Nereu Ramos, a Tabajara na Marechal Deodoro e a JK na Margem Esquerda.
Sem a televisão, que só chegou a partir de 1965, no primeiro lustro da tal década de ouro o rádio era tudo. As radionovelas e os shows ao vivo, estes no Edifício D. Joaquim (Largo da Catedral), Cine São José (Oficinas) e, mais tarde, no auditório da Rádio JK – Santa Catarina (rua Lauro Müller) eram imperdíveis. Gil Correa, Ézio Lima, Padre Osni Rosembrock, Dalmo Souza, Valmor Silva, os irmãos César e Agilmar Mahado, Oderi Ramos e Gilberto Silva, fizeram “casa cheia” sábados e domingos seguidos, empolgando plateias com uma variedade de astros e atrações. – Havia até disputa de pênalti no interior do Cine São José, sob o comando de Valmor Silva, com a participação de representantes do Hercílio Luz, Ferroviário, Nacional, Grêmio Cidade Azul e algumas equipes do campeonato amador da cidade, como Monte Castelo e Brasil da Margem Esquerda.
Dos cantores e músicos locais, ouvi, dentre outros, Amélia Bossle, Cardosinho, João Batista dos Santos, Suzana Barreiros (que chegou a participar do programa Flávio Cavalcanti) e o Regional de Zezinho Brasil, era o ponto máximo do espetáculo.
E patrocinadores para estes mega espetáculos nunca faltaram. A cada show era praticamente uma casa montada que ia para sorteio. Geladeira, rádio, fogão a gás, jogo de sofá (que se chamava de trio), cozinha completa, liquidificador, faqueiro e ferro elétrico eram conseguidos com facilidade pelas emissoras. Pares de sapatos, relógios, jogos de jantar, faqueiros, cortes de tecidos, as famosas camisas Volta ao Mundo e as concorridíssimas calças Lee também não faltavam. Tudo exposto no palco.
Já, dos estúdios, os jornais falados do meio-dia e do começo da noite tomavam conta de todas as conversas de bares e esquinas. Enquanto isso, o também imbatível “Cumpadre Cerso” (Celso Rosembrock) dominava o horário sertanejo – das 5 à 6 da tarde – com o seu Entardecer na Roça. Outro líder em audiência era João Kuerten, dono de um vernáculo muito próprio e que dizia grandes verdades, estas que lhe garantiam boa audiência. Sensacionalista como ele só, transmitia até júri ao vivo.
Por último, os homens do esporte: Paulo de Lima, Sinval Barreto, Valmor Silva e José Carlos Aguiar formavam um quarteto empolgante. Na Vila ou no Anibal Costa, inflamavam os torcedores do Ferrinho e do Hercílio chamando a todos, com muito jogo de cintura, polemizando e informando o ouvinte durante toda a semana que antecedia cada partida. Em dias de Ferro-Luz, então, era a glória e dia de distribuir muito brinde para quem acertasse os resultados dos jogos. E depois… a gozação, com o famoso e aguardado Que-la-lá , uma bem humorada crônica de Valmor Silva, sempre às segundas-feiras.