Carolina Carradore
Tubarão
Os esporádicos e-mails enviados pela filha conforta o coração da mãe de Simone Brasil Delfino, 35 anos, a aposentada Marlene da Rocha Brasil Delfino, 71 anos, que espera o mais rápido possível rever a filha. Simone passava as férias no Chile e desde então está impedida de retornar ao país em virtude do terremoto de 8,8 graus na escala Richter, registrado na madrugada de sábado.
Com voos de linha suspensos, a oficial de justiça federal, lotada em Blumenau, reúne força com mais 13 brasileiros para voltar ao país. “Liguei para o Itamaraty e disseram-me que a prioridade é descobrir se há brasileiros desaparecidos. Eles não estão preocupados com os brasileiros que precisam voltar ao país. Enquanto isso, minha irmã está sem poder fazer nada”, afirma a irmã de Simone, a advogada Mônica Brasil Delfino, 40 anos.
A esperança de Simone era pegar carona com os aviões que vieram ao Brasil buscar chilenos que passavam férias em Balneário Camboriú, mas não deu certo. O vereador, Maurício da Silva (PMDB), está empenhado em ajudar a tubaronense, mas foi orientado pelo governo catarinense que Simone precisaria procurar a embaixada brasileira. “Estou sem notícias da minha irmã desde hoje (ontem) pela manhã. Estamos desesperadas. Não entendo porque o Chile envia avião para buscar seu povo no Brasil e não aproveita e traz o brasileiros”, questiona.
Uma vida de aventuras
Viajar pelo mundo afora é a maior aventura realizada pela Tubaronense por Simone Brasil Delfino. Todos os anos, ela planeja suas férias fora do Brasil. Já conheceu Paris, Itália, Estados Unidos, Jerusalém e essa é a segunda vez que visita o Chile. No dia 18 de fevereiro, Simone viajou sozinha para o país latino. Na manhã do último sábado, a mãe Marlene Brasil Delfino soube do terremoto que assolou o Chile. “Fiquei em estado de choque, pois não sabia como estava minha filha. Conseguimos contato mais tarde e fiquei aliviada. Mesmo assim só sossego quando vê-la ao meu lado”, deseja Marlene.
Simone mantem contato com a família por e-mail. Ela contou para sua irmã, Mônica Brasil Delfino, que já estava em Puerto Vara quando o terremoto ocorreu. A cidade não foi muito atingida. No mesmo dia, o governo chileno fretou um avião e levou turistas de outros países para Santiago, capital chilena.
A tubaronense está abrigada em um hotel, junto com mais 13 brasileiros. No último e-mail, enviado ontem pela manhã, Simone relatou a presença de um pequeno tremor na cidade. Segundo ela, todos dormem de roupa com medo de haver outro terremoto e todos terem que sair correndo.
Simone retornaria no último domingo ao Brasil, mas os aeroportos só foram totalmente reabertos ontem e não há voos disponíveis. “Ela tem gastos que não estavam em seus planos e não terá como se manter por muito mais tempo. Precisamos da ajuda das autoridades urgente”, pede Mônica.
Um grande pesadelo
Rafael Lafuente*
Descrever o que ocorreu nestes últimos dias em grande parte do Chile, sem que se produza um nó na garganta, é difícil. A zona centro-sul do país foi surpreendida às 3h34min (de sábado) com um forte terremoto que, para alguns, parecia a prolongação de um sonho ruim. Após quase três minutos de movimentos, ruídos e pânico, veio aquele silêncio prazeroso que fazia sentir que o pior havia passado. Mas a verdade é que foi apenas uma miragem.
Após isso, as constantes réplicas nos faziam acreditar em algo que foi confirmado quando apareceram os primeiros raios solares, quando se podia ver o verdadeiro alcance da catástrofe. Foi desta forma que imagens de terror encheram nossas mídias, nas quais víamos cidades inteiras arrasadas pelo terremoto e pelos diversos maremotos que se originaram na costa, principalmente no sul do Chile.
Já se passaram três dias e o verdadeiro terror instalou-se em cidades como Concepción e Talca, onde ainda não há o básico como luz e água, o que abriu caminho para diversos saques que obrigaram o governo a chamar as Forças Armadas. O medo vivenciou-se durante o terremoto; agora, o que reina é a impotência de ver como compatriotas se aproveitam de suas desgraças para levarem bens que não lhes pertencem.
Em Santiago, nossa capital, onde a situação é menos complexa, houve tentativas de saques, mas a verdadeira preocupação é o possível desabastecimento, o que é um exagero, pois a capital não apresenta problemas. Mas as pessoas, dominadas pela ignorância e pela incerteza, agem mais com o coração do que com o cérebro.
Apesar de tudo, muitos de nós nos orgulhamos do nosso país, das pessoas honestas que lutam dia a dia para seguir adiante e levantar suas casas, que com tanto trabalho conseguiram. Luta que é apoiada pelo mundo inteiro, que nos cobriu de palavras de alento e força que nos fazem levantar todos os dias com mais vontade. Seguiremos adiante.
* Jornalista do diário La Hora, do Chile, especial para o Notisul. Tradução do texto feita por William Édson Hasstenteufel Souza.