O chão da escola é a realização da minha vida. Amo minhas crianças e jovens. Aquele amor de pai severo, às vezes carrancudo. Porém, profundamente comprometido com suas transcendências. Suas angústias, contradições, sonhos e insubordinações são combustíveis para a busca incessante de conhecimento. Um desafio a consumir livros, leituras, teorias e práticas. Tudo isso objetivando avistar um sorriso de contentamento, a alegria de aprender, o olhar de confiança. Nesses momentos, vejo o quanto vale a pena ser professor. Amo meus colegas indistintamente. Mesmo nas discussões acirradas, nas quais muitas lágrimas foram desperdiçadas, tenho a convicção de lutarmos pela mesma causa, porém, avistando o mundo de janelas diferentes.
A greve já dura mais de 30 dias. A saudade da dinâmica escolar é insuportável. Escutar aquele alarido do início das aulas. Uma sinfonia totalmente desconexa, mas magistralmente emaranhada porque irradia a energia sincera de uma mocidade vivendo plenamente a existência. Os debates acalorados na sala dos professores. O conhecimento vivo tomando corpo e voz na construção dialética do saber. Sentir essa disposição diária renova a caminhada, pois a contradição e o embate constituem-se a forja edificadora de homens e mulheres de valor. Estar longe desse espaço angustia o meu viver.
A democracia representa a engrenagem fundamental das relações sociais conquistadas a duras penas em nosso país. É por ela que entrei em greve e permanecerei até o último dia mesmo discordando de alguns encaminhamentos das bases em suas assembleias regionais e estadual. No entanto, mais indignado com a posição inflexível do governo. É perceptível o posicionamento impositivo de ambos os lados. Os professores insistindo em manter aberrações salariais tanto combatidas nos discursos educacionais. Por que duas regências se somos uma mesma categoria? Exigimos a realização de concursos e continuamos presos à permanência das aulas excedentes. O governo de sua parte escusa-se de apresentar uma proposta concreta de implantação do piso na carreira do magistério. Procura com a última proposta colocar a categoria em frentes diferentes. Retira conquistas históricas e desestrutura a tabela salarial.
O impasse tornou-se dramático. O desconto dos dias parados será um duro golpe a desgastar parte significativa da mobilização. Temo por um fim melancólico a esse movimento tão grandioso. Já existem algumas conquistas, as quais só se evidenciarão em longo prazo. É preciso reabrir as negociações. Dar um voto de confiança na continuidade do processo de implementação, em médio prazo, do piso na carreira, algo capaz de gerar um vencimento decente ao profissional, desobrigado assim de entupir-se de aulas excedentes para ganhar um pouco melhor. Urge refletir que um recuo estratégico de ambas as partes não se configura derrota, mas dar tempo para avanços concretos.

