Sentimentos compõem o estado humano. São vários: a alegria, o entusiasmo, o prazer, que são sentimentos de regozijo, ou a tristeza, a raiva, a amargura, a ansiedade, considerados sentimentos “negativos”. Estes últimos, na atualidade, são tão refutados – dado que havidos como problemas emocionais – que os suprimimos, “naturalmente”, com medicação.
Tudo vale para não sofrer. O excesso de especificações patológicas que temos desencadeou uma desenfreada “diagnosticação” do viver. Para Allen Frances, ex-diretor do DSM (sigla em inglês para Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), “É um absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais” (citações em http://migre.me/odnrk).
Aproveitando-se disso, a indústria farmacêutica deu início a uma desmedida e ardilosa campanha de oferta que usufrui da falta de informação dos consumidores e de sua aceitação acrítica das facilidades para se medicar, atrelando pílulas ao bem estar. Raramente alguém questiona seu médico sobre o que lhe foi receitado. Pior! Na maioria das vezes há uma súplica pelo medicamento. Tal é o absurdo disso que já há mais mortes por abuso de drogas lícitas do que por consumo de drogas ilícitas.
O consumo desnecessário de medicamentos por adultos para “deletar” sentimentos completamente normais é um problema sério, mas, bem, é coisa de adulto e entre adultos. Agora, muitos pais, além de não se suportarem em condições normais de vida, meramente, por não terem paciência com suas crianças, ou por desejarem que elas sejam “especiais”, apelam para o remédio.
Ora, “temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação”.
Remédios podem e devem ser usados em determinados tratamentos (transtornos mentais severos e persistentes, que provocam grande incapacidade), mas não ajudam nos problemas cotidianos. Simplesmente não existe tratamento mágico contra o mal-estar comum em certas situações da existência.
Em se tratando de saúde emocional, o tratamento medicamentoso é limitado e muitas vezes meramente mascarador de sintomas. Sim, o sintoma se vai, ou é suprimido, mas, e o desencadeante desse sintoma? Remédio não cura a causa, apenas bloqueia o sintoma, que acaba reaparecendo de outro modo, talvez piorado. Os sentimentos “negativos” compõem a natureza do ser humano. Por que evitamos tanto vivê-los? Do que estaríamos fugindo? Não seria de nós mesmos?

