Nazareno Schmoeller Souza
Empresário
Nunca fui de ficar muito tempo em frente ao espelho. Só o necessário para dar um tapa no visual. Mas, ultimamente, tenho me reparado com um pouco mais de apuro.
E isso me obriga, para não parecer mais maluco do que já sou, a engolir pequenas gargalhadas, o que me causa uma certa cócega na boca do estômago. O que o tempo preparou em mim até parece sacanagem de um moleque peralta. Ou seria obra de um artista escultor sacana?
Mais provável mesmo que sejam traços de um caricaturista. Ao contrário do lapidador, que quando se apossa de um diamante bruto desbasta suas arestas, lapida-o com muito esmero, até transformá-lo em uma joia perfeita. Já o tempo, lento e silenciosamente, vai nos moldando de forma contrária. Criam em nós pequenos sulcos. Contempla-nos com alguns volumes abaixo dos olhos. Encontro, não sei direito de onde, certas sobras de pele que, entre outras dezenas de novos sinais, servem como digitais a denunciar nossa idade vivida. A exemplo dos caricaturistas, o tempo, ao rabiscar esse nosso novo formato, valoriza e dá maior destaque ao que já nos é desproporcional. No meu caso, o nariz.
Visto isso com certa atenção, não me resta coisa mais sensata a fazer do que dar risadas diante dessa nova realidade.
Mas, como a vida é uma constante de “ganhos e perdas”, como bem descreveu Lia Luft em um de seus livros, essa transformação também traz o seu lado positivo.
Por trás desse novo semblante, não é difícil perceber certa serenidade, fruto da sabedoria acumulada pelas experiências vividas.
Também reflete nesse novo rosto uma alegria mais natural, que só é possível aos que enxergam nos detalhes de uma flor, no movimento de uma nuvem ou no frescor de um vento, o quanto de valioso é termos vida e fazermos parte desse todo chamado de universo.
Visto desta forma, nossa alma começa a sorrir com maior espontaneidade e isso reflete como um sol, onde as rugas representam os seus raios, que se estendem para todos os lados.
Como é bom ter vivido todos esses anos!
Ter tido o privilégio de saborear os frutos de cada estação, sem sentir saudade do que o tempo levou, pois ele sempre nos compensa com novos ganhos e nos impulsiona a novos desafios.
Que os anos futuros não sejam diferentes.
A oferta é para todos. Porém, cabe a cada um de nós, pelo livre arbítrio, seguir estrada afora, com um olhar no infinito, curtindo cada surpresa reservada depois de uma curva ou sentar à sua beira e ficar gemendo para um passado que, bom ou ruim, não volta mais.
Que façamos sempre as melhores escolhas.
Saber viver é para os fortes!

