Li, no blog do Estado de São Paulo, que o Tietê, tradicional clube social paulistano que pontificou durante décadas com suas equipes campeãs de remo, de natação e de tênis, acaba de fechar suas portas, após perder uma ação judicial movida pela prefeitura.
Cento e dois anos depois de sua fundação, o Tietê é despejado do imóvel onde foram formados atletas olímpicos extraordinários, como a tri-campeã de Wimbledon, a legendária Maria Ester Bueno.
Lá, foi erigida uma estátua em homenagem à grande campeã mundial de tênis. Será que vão levá-la para algum depósito esquecido da municipalidade?
Lamentavelmente, o destino do Tietê tende a ser o de muitos clubes sociais que ainda sobrevivem teimosamente em nosso país, sem o espírito familiar dos bailes, sem a atmosfera glamourosa das debutantes, sem os carnavais de salão, sem encontros, sem esporte.
Vivem, ainda, mal e mal, do idealismo de alguns sócios, como os poucos remanescentes do Tietê. Vivem das pequenas contribuições mensais dos sócios remanescentes, acumulando dívidas e às moscas.
Os clubes sociais tiveram o seu auge até os anos 1970, quando disseminaram-se os programas da televisão por satélite. Antes da televisão, os vizinhos se visitavam. No verão, punham as cadeiras na calçada para conversar noite adentro. As portas não tinham trinco e as pessoas compravam fiado no caderno da venda. Ninguém adulterava os preços nem deixava de pagar a conta no fim do mês. Nossas mães costumavam emprestar umas às outras, nas horas de necessidade, pequenas quantidades de arroz, de feijão, de farinha, quando não dava tempo de ir até a venda.
Naqueles tempos, os clubes ofereciam aquilo que a TV e a internet vêm revogando: a sociabilidade. As pessoas se encontravam nos clubes, onde faziam amizade; viam os filhos crescer, dançar, encenar, cantar, praticar esportes, namorar, noivar, casar.
A TV mudou tudo isso. Isolou as pessoas dentro de casa, trancafiadas, com medo do bandido. Criou gerações de mudos que não se falam, não dialogam, nem mesmo dentro do mesmo teto. E os clubes, não podendo competir com toda a fantasia colorida da mídia eletrônica, foram definhando até desaparecer, como o glorioso Tietê.
As condições de vida melhoraram muito com a urbanização, com as ruas pavimentadas, com o barateamento dos automóveis, com o acesso em massa à saúde e à escola, com a universalização de meios digitais; mas, piorou muito no campo ético.
A infração mais grave de um jovem era cheirar lança perfume. E um crime, como o do Sacopã, ocupava o noticiário durante anos. Hoje, os crimes são tantos que não há espaço na imprensa para comentá-los. A droga está alastrada em todos os ambientes e ameaça a autoridade do estado.
A confiança que o dono da venda tributava a seus clientes não existe mais. Nem as cadeiras na calçada, nem clubes de tradição, como o Tietê. Que pena!

