quarta-feira, 28 janeiro , 2026

A grande enchente que eu vi

 

Diferente, porém sem fugir do foco, falo da grande enchente de 1974 na simples condição de morador da cidade à época, quando vivemos nossos momentos mais dramáticos e entristecedores, porém, em contraponto, também de grandes lições que passamos e aprendizados que adquirimos no calor da ferrenha contenda com a iminente desgraça que se desenhava em nosso, até então, belo e fértil chão tubaronense. 
 
Da parte dramática e entristecedora, todos sabem, pois o mundo viu, ouviu e compartilhou desses inesquecíveis momentos, quando sucumbimos impiedosamente sob as avassaladoras águas do rio Tubarão, este que, de ponta a ponta, divide a cidade ao meio e que, incontrolável, naquele 24 de março, deixara rastros de danos facilmente comparáveis, inclusive, às acirradas guerras mundiais. Quem viu de perto a enchente de 1974 sabe muito bem do que estou falando.  
 
Já, das lições e aprendizados, quase tudo ficou no íntimo de cada um, muito mais por conta de, naquele momento, a grandeza da catástrofe não permitir que fossem simultaneamente absorvidos e disseminados, ficando a reflexão e a multiplicação desses valores para um pouco mais tarde, quando já caminhávamos para o valente lema “Reconstruir é Viver”. 
 
Falo, então, da restauração da ordem de obediência, da avaliação fria das necessidades de cada um e do respeito ao próximo com igualdade, independentemente da condição social, situação muito incomum à rotina de quem não convive, nem conviveu durante toda sua vida com momentos diferenciados, principalmente nos instantes de menor sorte e pouca generosidade. 
 
Foram poucos os tais dias daquela “aula”, é verdade; mas, daquele pouco, muito se aprendeu, com certeza.
 
Para uma imensa maioria, o dinheiro perdeu imediatamente o valor, onde mais rico era quem tinha um quilo de arroz em casa, que uma nota (molhada) de dinheiro bolso. Naquele momento em que as estradas sumiram, mais valia, também, uma minúscula “bateira” (canoa), que um luxuoso Gálaxie 74, o mais cobiçado carro da época. Houve, até, quem saísse de casa socorrido, boiando, numa frágil câmara de ar de caminhão, deixando na garagem, soterrado na lama e coberto até o teto de água, seu, até então, invejado e brilhante bólido, agora sucata. 
 
Na “fila da fome”, pegando ficha para ganhar quinhões de alimentos, doutores e “mortais”, em quilométricas indianas, sob sol ou chuva, aguardavam pacientemente, sem dar um pio de reclamação, o momento exato de serem atendidos. 
 
E outros, ainda, também abastados e tidos por “empinados” – meio sem jeito, é claro, mas obedientes -, viviam pelos quatro cantos da cidade, nas filas buscando água potável, segurando firme amassadas e disformes latas e bacias de alumínio, modestos vasilhames tomados emprestadas ao vizinho do lado, mesmo fronteiriço a quem, certamente, dias antes antes, mal lhe dera um discreto aceno com as mãos. Que lição!
 
Fica aqui a pergunta: quantos aprenderam?

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