Em 1998, tivemos o escândalo das pílulas anticoncepcionais de farinha, a divulgação foi tão forte que logo passou integrar o rol dos crimes hediondos a “falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais”.
Muitas vezes, a mídia faz o papel dos agentes policiais e investigadores. Durante alguns anos, foi veiculado o programa Linha Direta, que trazia aos telespectadores algumas reconstituições de crimes que ninguém havia presenciado. Os suspeitos quando exibidos já eram automaticamente culpados, a busca era pelo assassino e não pelo suspeito, pois este não daria audiência. As produções cinematográficas que envolviam os crimes davam uma conotação malévola ao procurado. Acontece que, muitas vezes, tratava-se de mera ficção, mas essa informação não era repassada ao telespectador.
No programa exibido no dia 12/08/1999, buscava-se por Marcos “Capeta”, chefe de quadrilha, com uma metralhadora instalada em cima de uma pickup que saía atirando nos policiais indefesos com seus revólveres 38. Durante a gravação, o ator que interpreta o procurado tem seu rosto envolto por chamas, trazendo à lembrança seu vulgo. As imagens causaram na população uma sensação de medo e insegurança. Depois da exibição dos episódios, as pessoas praticamente caçavam o acusado, procurando semelhanças em seus vizinhos e conhecidos, pois um bandido extremamente perigoso estava à solta.
No dia 18/08/2000, o programa veio ao ar trazendo a comemoração da morte do bandido. Em documentos nos autos, Marcos “Capeta” foi morto com 22 tiros em uma casa em local ermo, e sua quadrilha era composta por um menor de 14 anos que teve oito perfurações de bala. Todo o sensacionalismo envolvido na divulgação deste caso fez com que ocorresse um julgamento equivocado e antecipado, pois na época ele estava foragido, mas ainda não havia sido condenado.
Não há como questionar o relevante papel dos veículos de informação em nosso meio social. Nossa função como espectadores é estar atento à mensagem divulgada e extrair dela a verdade real, desconsiderando o juízo de valor. Provocar sensações, incitar o receptor, gera audiência e consequentemente dinheiro, logo, tudo não passa de um jogo capitalista onde nós somos os peões desse tabuleiro.

