Você deve estar querendo ter uma pausa nos assuntos políticos e econômicos. Eu também! Por isso, vou tratar, hoje, da riqueza do nosso cancioneiro popular, e da sua relação com a mulher escolhida.
Pablo Neruda, do alto de sua condição de maior poeta sul-americano, disse, numa entrevista ao Jornal do Brasil,quando de uma de suas passagens pelo Rio de Janeiro, que a mais bela frase poética do nosso Continente foi escrita por Orestes Barbosa, na insuperável canção “Chão de Estrelas”:
“A porta do Barraco era sem trinco,
E a lua furando nosso zinco,
Salpicava de estrelas o nosso chão.
E tu pisavas nos astros, distraída…
Sem saber que a beleza desta vida,
É a cabrocha, o luar e o violão”.
O mesmo Orestes Barbosa produziu outras pérolas para o cancioneiro nacional. Em “A Deusa da minha rua” , chorou o amor impossível de um jovem pobre pela moça rica:
“A Deusa da minha rua,
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar.
Nos seus olhos, eu suponho,
Que o sol, num dourado sonho,
Foi claridade buscar”.
Esse mesmo encantamento pela mulher amada está em outras canções, como em Januária, onde Chico Buarque mostra seu invejável talento poético:
“Toda gente homenageia,
Januária na Janela.
E até o mar faz maré cheia,
Prá chegar mais perto dela.”
Ao fazer uma feliz reconstrução sutil da “Amélia”, de Mário Lago, Chico Buarque exalta a fidelidade feminina:
Com açúcar e com afeto,
Fiz seu doce predileto,
Pra você parar em casa…
Qual o quê?
Com seu terno mais bonito,
Você sai, nem acredito,
Quando diz que não se atrasa…”.
Cartola, embora com pouca escolaridade, é autor da inesquecível “As rosas não falam”, de que, se vivo fosse, Neruda, também, diria maravilhas:
“Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem:
As rosas não falam.
Simplesmente, as rosas exalam,
O perfume que roubam de ti…”.
Autor mais notável do samba carioca, Noel Rosa, revela sua paixão não correspondida pela operária da “Fábrica de Tecido”:
“Você que atende o apito
De uma chaminé de barro,
Porque não atende o apito,
Tão aflito,
Da buzina do meu carro?…
No mesmo nível de construção poética, Johny Alf, escreveu a incomparável “Eu e a Brisa”:
“…E, depois que a tarde nos trouxesse a lua,
Se o amor chegasse, eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz.
Fica, oh brisa fica, pois, talvez, quem sabe,
O inesperado faça uma surpresa,
E traga alguém que queira te escutar,
E junto a mim, queira ficar…”.
Minha neta, Luiza, nasceu embalada na beleza da canção de Tom Jobim:
“…É um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores…”.
Em parceria com Vinicius de Morais, Tom Jobim eleva a mulher às culminâncias, cantando:
“Se todos fossem iguais a você,
Que maravilha viver.
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar,
A sorrir, a cantar, a pedir a beleza de amar”.
Muitos outros poetas, como Joubert de Carvalho, que compôs “Maringá”; Dorival Caimy, que celebrizou “Dora”e “”Marina”, Herivelto Martins, com “Normalista”, ou Silvio Cesar, com seu “Moço,Velho”, exaltam a mulher e a paixão que ela desperta, e que faz toda a riqueza do nosso cancioneiro popular.
Exaltam o que é mais sublime e essencial na vida!

