No programa do Jô, exibido no mês passado pela Rede Globo, inclusive com estudantes da Unisul de Tubarão na plateia, o bailarino Thiago Soares foi um dos entrevistados. Falou sobre sua carreira e como conseguiu sair da dança de rua para a condição de primeiro-bailarino do Royal Ballet de Londres. De fato uma história interessante de superação, haja vista sua origem humilde na comunidade de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Demonstrar exemplos como esse é salutar.
Estimula outros jovens a buscarem a realização de seus sonhos. No entanto, ao explicar o porquê escondia dos colegas o fato de participar de ensaios de balé, o entrevistado escorregou no viés ideológico do preconceito.
Afirmou que em escola pública sempre ocorrem piadinhas e comentários preconceituosos. Ao fazer esta afirmação, Thiago reforçou um senso comum de forte apelo discriminatório: os pobres não têm o refinamento necessário para compreender o que é arte. Seu discurso foi elitista e totalmente reacionário. Um deslize desnecessário. Os dados são claros e irrefutáveis. O preconceito não tem sexo, escolaridade, faixa etária, muito menos nível social. Aliás, é importante ressaltar a funcionalidade da discriminação. Ela está a serviço de quem domina. A medida em que se fragmenta, divide e desune.
A partir de tal perspectiva, surge no seio da classe dominante de algum lugar em uma determinada época, e dissemina-se na sociedade, perpetuando-se como verdade suprema, inquestionável. Pode até ser mais visível nas classes oprimidas, pela falta de polidez ou hipocrisia. Mas jamais podemos tratar atos discriminatórios como exclusividade das classes baixas. A elite alimenta os mesmos equívocos, economizando-os na verbalização.
Revestidos da máscara de politicamente corretos, escondem seus reais posicionamentos sobre tais temáticas. Porém, não raro, deixam escapar aqui e ali pistas evidentes de que nutrem pensamentos preconceituosos. Quando você ouve Claudia Leitte afirmar que o filho dela não será gay porque terá uma boa criação, isso não se configura ato falho ou afirmação isolada. É homofobia. Mesmo, ironicamente, sendo ícone do público por ela ofendido.
A discriminação precisa ser desmistificada para, definitivamente, não fazer mais parte das relações sociais. Para isso é necessário entender sua causa basilar: o poder. Todo preconceito tem como pano de fundo a manutenção do poder.
Causa espanto observamos, ao longo da história, que os primeiros escravos não foram os africanos negros. Mais ainda saber que nas tribos africanas havia escravidão e que foram os próprios negros incentivadores do comércio internacional de escravos.
Tudo em nome do poder de uns sobre os outros e pelo capital, sustentáculo indispensável à permanência do comando. Hitler realmente acreditava na supremacia ariana? Difícil acreditar. Buscava apenas desapropriar os recursos financeiros dos judeus para alimentar seu ímpeto imperialista. Para tanto, qualquer desculpa seria suficiente. Não existem argumentos. Lança-se a falácia e a força institucional cumpre o papel de sacralizá-la. No que tange a institucionalidade, a linguagem apresenta-se como ferramenta imprescindível para disseminar o ódio.
O combate ao preconceito tem que ser travado prioritariamente no campo do discurso. É um constante exercício de policiamento. Afinal, falamos o que pensamos e pensamos o que falamos. Quebrar esse círculo tautológico depende de revermos não somente as leis e as etiquetas, mas o que inferimos e verbalizamos. As velhas desculpas do ‘sem querer’, ou dos vícios de linguagem, precisam ceder lugar à consciência de nossas práticas discriminatórias e da necessidade urgente de revermos nossos conceitos quando à pluralidade da existência.

