Maycon Vianna
Tubarão
A pior sensação dos familiares é, além de não saber o paradeiro da vítima desaparecida, é pensar que ela pode ser explorada sexualmente, raptada, violentada, estar no terrível e sombrio mundo do tráfico de drogas ou até mesmo servir como tráfico de pessoas. A dor da perda de um ente que jamais pode retornar para casa é também saber que ele poder sofrer na mão de criminosos. Na segunda matéria da série desaparecidos, vamos abordar os crimes que envolvem aqueles de que não se tem mais notícias.
De acordo com o coordenador do Programa SOS Desaparecidos, major Marcus Roberto Claudino, da Polícia Militar de Santa Catarina, as maiorias dos registros de desaparecimentos são de menores de 18 anos, na maioria meninos, porém, o que mais preocupa são as meninas pela sua vulnerabilidade, que em muitos casos terminam em exploração sexual ou violência contra mulher. “Infelizmente, muitos casos não são denunciados à polícia. Não tem como fazer investigações”, salienta.
Quando os jovens deixam os seus lares por motivo de desavenças familiares, a maioria dos desaparecidos, segundo estudos da Polícia Militar, entram para o mundo das drogas. “Ficam à mercê do tráfico, muitos acabam utilizando crack, cocaína, maconha. É um grave problema social. Não tem alternativa, ou faz parte deste mundo, ou morrem. Por isso, o diálogo é tão importante para evitar que os filhos deixam de ser amparados pelos responsáveis e fujam de casa”, explica a psicóloga Carla Santos.
Tráfico humano: a paranoia de um crime sórdido
Nos anos de experiência de trabalho junto a desaparecidos, nada mais assustador que o crime de tráfico de pessoas. “Recebemos denúncias que deixariam muitas pessoas perplexas e até paranóicas. Nada é tão sórdido quanto o tráfico de pessoas, principalmente o de crianças”, confirma o coordenador do Programa SOS Desaparecidos, major Marcus Roberto Claudino.
Advogados, médicos, enfermeiros, agentes de modelo, integrantes de ONGs, orfanatos ou casas de acolhimento, são algumas das profissões de ‘faixadas’ utilizadas para aliciar jovens desesperadas e até para submetê-las ao pior pesadelo de uma mãe, que é a incerteza do destino de seu filho após o seu nascimento.
Na década de 80, o sul do país ficou manchado pelo escândalo de quadrilhas que levavam crianças de Santa Catarina para serem facilmente vendidas em países da Europa e Oriente Médio. “Eles eram escolhidos por terem pele clara e, se tivessem olhos azuis ou verdes, o preço subia. Quadrilhas foram responsáveis pela venda de mais de 650 bebês, segundo estimativa da Polícia Federal naquela época”, informa.
Ainda de acordo com dados da PF, em todo o país, são sequestradas três mil crianças por ano. “Infelizmente, esse comércio ilícito é o terceiro mais rentável no mundo, só perde para o tráfico de drogas e armas. Nem todo desaparecido foi traficado, mas quase todo traficado em algum momento da vida se torna um desaparecido”, revela.
Na edição de amanhã, traremos uma reportagem especial de como proceder ao sentir a falta de um familiar e de que forma deve ser acionada a polícia.
As crianças são levadas para outros países para serem traficadas
As redes criminosas
Hoje, o tráfico de seres humanos só perde em rentabilidade para o comércio ilegal de drogas e armas. As redes criminosas que traficam seres humanos lucram até R$ 30 mil por pessoa aliciada.
