sexta-feira, 2 outubro , 2026

“A população precisa agir”

Amanda Menger
Tubarão

Notisul – O senhor foi convidado para ser o coordenador da câmara técnica de proteção e preservação das nascentes, do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão. Qual a importância das nascentes?
Ismael
– Hoje, ao redor de 12 mil pessoas na região que ainda usam material direto das nascentes, sem tratamento, sem nada. É só olhar o número de pessoas por cidades, e a maioria não tem nem cinco mil pessoas. São várias cidades que estão sem serviço de água. A importância das nascentes é a preservação da água potável para um número significativo de pessoas na bacia.

Notisul – O senhor trabalha ainda com pesquisas na área ambiental?
Ismael
– Eu me aposentei como professor, mas continuo trabalhando, só que agora em uma empresa que faz pesquisa para terceiros. Pesquiso óleos vegetais aromáticos para uso em cosméticos. Quando eu trabalhava na Unisul, tinha uma incumbência institucional e eu obedecia isso.

Notisul – A sua formação acadêmica levou o senhor a pesquisar sobre a qualidade da água?
Ismael
– Sou licenciado em química, tenho mestrado em engenharia metalúrgica e doutorado em química. Isso foi conseqüência. Fui chamado em 1978 para cuidar da questão ambiental na Unisul, para discutir as questões que envolviam a universidade os recursos hídricos sempre foram parte deste universo. Como eu tinha equipamento muito mais apropriado para análise dos recursos hídricos, sempre me coloquei para dar uma qualificada neste sentido. Até porque as disciplinas que eu ministrei na universidade eram típicas de análise ambiental, era o professor de análise instrumental, então, lógico, o meio ambiente foi uma conseqüência.

Notisul – Em 2004, devido às suas pesquisas, o senhor fez um alerta. A possibilidade era que, em cinco anos, e o prazo vence no próximo ano, o rio Tubarão não teria mais água potável. A previsão não foi muito drástica? Ou só não vamos chegar a este cenário por que o senhor fez o alerta?
Ismael
– Foi necessário. Pergunte se as pessoas estão gostando, ou, se gostaram há um tempo do gosto da água que saía das torneiras de suas casas nesse entremeio? Não só foi necessário como as pessoas deveriam ter se acordado muito mais. Na verdade, cerca de 60% das pessoas têm condições de comprar água e talvez estejam comprando e não precisariam gastar dinheiro porque poderiam consumir a água da torneira. E, por outro lado, os 40% estão tomando água que muitos dizem não ter gosto adequado e não tem alternativa. E aí? E os próximos anos?

Notisul – Entre os fatores poluentes da bacia do rio Tubarão, qual o que mais influi hoje? É a falta de saneamento básico?
Ismael
– Eu, às vezes, dizia que a questão industrial, o carvão, era importante, e alguém me chamou atenção que isso também poderia ser colocado como saneamento básico de certa maneira. Porque isso faria parte do bom tratamento dos efluentes. Então, saneamento, na prática, é o que precisa. Saneamento é tornar são, no caso a água. Lógico que saneamento envolve muitas outras coisas. Observe: as lagoas têm outras questões ambientais, como a sobrepesca. A aproximação das lavouras das próprias lagoas, os barcos, as pessoas fazendo casas nas margens, e aí não tem espaço para construir redes de esgoto. Tudo isso está envolvido e pode ser chamado de saneamento. Se fizer saneamento e, mesmo assim, aparecerem outros problemas, há que se cuidar deles. Mas o importante é atacar um problema, manter o foco. Não adianta tentar resolver tudo de uma vez só. Se a população quer resolver o problema, deve focar em um dos fatores, saneamento, carvão, e manter esse foco.

Notisul – Então, para o senhor, não adianta “abraçar o mundo”?
Ismael
– Não só não adianta como nem adianta esperar que as soluções caiam sozinhas do céu. A população tem que acordar e fazer alguma coisa. É escolher um tema, um fator e trabalhar. Arregaçar as mangas.

Notisul – Quando o senhor começou a trabalhar com análises ambientais, no fim da década de 1970, imaginava que o problema ambiental fosse tão grave?
Ismael
– Quando me pediram para trabalhar nisso, era praticamente uma ordem de serviço institucional. A primeira coisa que eu fiz foi procurar conhecer o máximo possível a realidade, e os lugares. E eu achei algumas coisas. Algumas muito graves, outras nem tanto, umas que pioraram, outras neste período até melhoraram. Mas, o que eu pude perceber de modo geral, é que a região de Tubarão é uma região conflagrada e, na época, em 1978, se você olhasse o relatório da Fundação de Meio Ambiente (Fatma), simplesmente esqueceu do sul do estado. Para dizer que não constava nada, falava apenas do rio Araranguá. E o rio Tubarão, Capivari? Não tinha nada. Essa era a situação. Apesar dele estar “morto”, a Fatma sequer mencionava.

Notisul – Pode-se dizer então que houve omissão do poder público?
Ismael
– Eu acredito que tenha havido isso. Não diria que o crescimento foi desenfreado, até porque precisamos crescer mais. Eu acho estranho dizer crescimento desenfreado, quando, na verdade, ele foi mal planejado, mal orientado. Por exemplo, algumas leis não são cumpridas. Algumas leis não existiam. Nunca existiu um Plano Diretor da área rural na região, se existe é agora, que se está começando. Nas beiras das estradas, foram divididos os terrenos, e de forma errada. Isso encarece todos os serviços públicos, saúde, educação, segurança, vai sobrecarregar o estado, que, por sua vez, foi omisso no planejamento. A conseqüência é que onera também o meio ambiente. Não tem como fazer tratamento de esgoto, não tem como distribuir água potável para todos, então, são questões que precisam ser atacadas. Volto a dizer: é preciso tomar providência e agir.

Notisul – O senhor acredita que hoje as pessoas estão mais preocupadas com o meio ambiente?
Ismael
– O que eu penso é o seguinte: o gosto estava na torneira, pelo menos em Tubarão. Em Laguna, a sujeira nas praias. Muitas praias com placas dizendo que eram impróprias para banho e as pessoas correndo para o mar. Essas contradições são típicas da falta de planejamento. E o planejamento deveria ter sido feito, afinal, nós pagamos impostos para isso, é para isso que existe estado. Nós escolhemos e elegemos os nossos representantes, governantes e, por isso, temos nossa parcela de responsabilidade.

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