Nesta segunda-feira, 6 de fevereiro, o mundo, especialmente o lusófono, comemora os 404 anos de nascimento do religioso, escritor e inigualável orador português Padre Antônio Vieira.
Além de grande orador, ele pode ser considerado um homem muito além de seu tempo por lutar contra iniqüidades muito comuns no seu século 17: combateu a exploração e escravização dos povos indígenas (sendo por eles chamado de “Paiaçu”, Grande Pai, em tupi), lutou contra o preconceito aos judeus, propugnou pela abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), pregou pela abolição da escravatura (sua avó paterna ser mulata ou africana) e, corajoso e destemido, criticou severamente a própria Inquisição.
Graças à sua pregação, a atividade da Inquisição esteve suspensa por determinação papal em Portugal e no império entre 1675 e 1681. Ou seja, ele conseguiu dois feitos raros e históricos: parar durante sete anos a atividade do Santo Ofício em Portugal e, mais importante, escapar da implacável garra dos inquisidores.
Mais que escritor, padre Antônio Vieira foi um exímio orador. Ainda assim, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro e português.
Ele estudou teologia, lógica, metafísica e matemática, obtendo mestrado em artes. Isso talvez explique porque a clareza, simplicidade, precisão sintática e dialética, rigor da lógica do pensamento tenham sido suas características mais marcantes, definindo um estilo que o transformou em mestre indiscutível da nossa língua.
Vieira deixou-nos como legado cerca de 700 cartas e 200 sermões, entre os quais se destacam os célebres: “Sermão da Sexagésima”, “Sermão do Bom Ladrão”, “Sermão da Quinta Dominga da Quaresma”, “Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda” e “Sermão de Santo António aos Peixes”.
Suas palavras e sua coragem em denunciar vícios e mazelas da sociedade de então despertavam uma paixão transformadora nos ouvintes.
O “Sermão do Bom Ladrão”, por exemplo, foi proferido em 1655 na Igreja da Misericórdia de Lisboa, perante D. João 4º e toda sua corte, incluindo juízes, ministros e conselheiros.
Lá pelas tantas, ele diz, com todas as letras: “O que só digo e sei, por teologia certa, é que em qualquer parte do mundo se pode verificar o que Isaías diz dos príncipes de Jerusalém: os teus príncipes são companheiros dos ladrões. E por quê? São companheiros dos ladrões, porque os dissimulam; são companheiros dos ladrões, porque os consentem; são companheiros dos ladrões, porque lhes dão os postos e poderes; são companheiros dos ladrões, porque talvez os defendem; e são finalmente seus companheiros, porque os acompanham e hão de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladrões os levam consigo”.
Já imaginaram? Que coragem!
Mais adiante, invocando o pensamento de Santo Agostinho, ele faz a célebre comparação: “Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: ‘Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres’”.
Não é um primor? Pena que não apenas seu estilo seja imortal…

