Início Colunistas Aos 45 - Karine Mendes A sombra que segue o Mbappé. Coincidência ou padrão?

A sombra que segue o Mbappé. Coincidência ou padrão?

Catherine Steenkeste/Getty Images

Quando um clube vive uma crise, a gente procura culpados em todo lugar.

Técnico ruim. Diretoria incompetente. Elenco sem entrosamento. Fase ruim.

Raramente a gente olha pro jogador mais famoso, mais caro e mais protegido pela narrativa da mídia e pergunta: e se o problema for esse aqui?

Com o Mbappé, chegou a hora de fazer essa pergunta.

Porque em dois clubes diferentes, em dois países diferentes, com técnicos diferentes, com elencos completamente diferentes, o mesmo padrão aparece.

Onde o Mbappé chega, o vestiário racha.

Paris. O elenco mais caro do mundo. Sem Champions.

O PSG montou, entre 2017 e 2023, um dos elencos mais caros e talentosos da história do futebol.

Neymar. Messi. Mbappé. Três dos jogadores mais habilidosos do século no mesmo time. Nenhum título de Champions League.

A pergunta que o dinheiro não conseguiu responder: por que não?

Parte da resposta veio de dentro. E tem nome.

Em 2022, Mbappé renovou o contrato com o PSG recusando o Real Madrid. Junto da renovação, vieram promessas da diretoria: ele teria voz ativa, o técnico seria trocado, o diretor esportivo seria demitido. E Mbappé queria jogadores servindo a ele, não uma equipe.

Não é interpretação. Foi relatado pelo jornalista Marcelo Bechler da TNT Sports, com base em informações do vestiário.

Veio o ‘Penalty Gate’: durante uma partida contra o Montpellier, Mbappé entrou em conflito com Neymar sobre quem bateria o pênalti. A briga verbalmente só não chegou às vias de fato porque companheiros interviram.

Veio o ‘#PivotGang’: insatisfeito com o papel tático que exercia, Mbappé postou a hashtag nas redes sociais, ironizando publicamente o treinador e expondo o clube ao ridículo.

Quando Messi chegou, a coisa piorou. Neymar relatou em entrevista a Romário que Mbappé demonstrou ciúme da amizade entre os dois e passou a não querer dividir atenção dentro do vestiário. ‘Ego é bom. Mas você não joga sozinho’, disse o brasileiro.

No fim, o PSG processou Mbappé por valores não pagos. Mbappé processou o PSG por assédio moral. Uma relação que começou com festa e terminou nos tribunais.

E a Champions League? Nunca veio. Em sete anos.

O que o PSG fez sem ele

Isso é o que mais me interessa nessa história.

Quando o Mbappé foi embora, a mídia tratou como o fim do PSG como potência.

O que aconteceu na prática foi o oposto.

Sob o comando de Luis Enrique, sem Mbappé, sem Neymar, sem Messi, o PSG construiu um time funcionando como equipe de verdade. Dembélé, Doué, Barcola, Kvaratskhelia. Nenhum nome valendo 222 milhões de euros. Todos correndo, todos pressionando, todos jogando juntos.

O resultado: o PSG voltou a brigar seriamente pelo título europeu.

Marine Le Pen, adversária política de Mbappé, disse publicamente o que muitos pensavam: ‘Ele saiu do PSG dizendo que era para ganhar a Champions. Entretanto, o PSG ganhou sem ele.’

É uma frase política. Mas é uma frase com dado.

Madri. A mesma sombra.

Mbappé chegou ao Real Madrid em 2024 como o maior sonho da torcida merengue.

No primeiro ano, com Ancelotti, fez gols, mas o Real perdeu o título espanhol. A Champions escapou de novo.

No segundo ano, veio Xabi Alonso. E o clube que deveria ser o destino final de Mbappé virou um campo de batalha.

Em maio de 2026, o Marca reportou que Valverde sofreu um traumatismo cranioencefálico em uma briga física com Tchouaméni no treino. O Real Madrid confirmou a lesão.

A rádio Onda Cero e o The Athletic confirmaram outro episódio: Rüdiger deu um tapa no rosto do lateral Álvaro Carreras durante uma sessão de treino.

Seis jogadores em boicote silencioso ao técnico Arbeloa. Pelo menos um deles, Dani Ceballos, rompeu definitivamente e pediu para não ser mais relacionado.

E o Mbappé? Estava em outra polêmica, com a comissão técnica, por causa de uma marcação de impedimento. E foi flagrado saindo do centro de treinamento aos risos, de carro, enquanto companheiros lidavam com as consequências das brigas.

Uma petição pedindo sua saída do Real Madrid já somava 30 milhões de assinaturas.

Trinta milhões.

Isso já aconteceu antes

O Mbappé não é o primeiro grande jogador cuja presença desequilibrou mais do que construiu.

Mario Balotelli tinha talento suficiente para ser um dos maiores centroavantes de sua geração. No Manchester City, chegou a agarrar o técnico Mancini pelo pescoço num treino. No Milan, no Liverpool, no Nice, sempre o mesmo roteiro: lampejos de genialidade e toneladas de conflito. Acabou a carreira no futebol turco, longe de onde poderia ter chegado.

Romário era puro gênio. E puro conflito com qualquer técnico que tentasse impor disciplina. Funcionou enquanto o talento foi grande o suficiente para sobrepor tudo. Quando o talento foi cedendo, o conflito ficou.

A diferença de Mbappé para esses dois é que ele opera com mais sofistação.

Não é agressão física. É isolamento, pressão por poder, exigências de bastidores, comportamento que fragmenta o elenco sem que ele precise levantar a voz.

Isso, em muitos sentidos, é mais difícil de combater.

A pergunta que o futebol ainda não sabe responder

Existe uma diferença entre um jogador difícil e um jogador tóxico.

Jogador difícil: você gerencia o ego, mantém o ambiente e colhe o resultado.

Jogador tóxico: o ambiente nunca se estabiliza. O clube gira em torno de um eixo que não sustenta o coletivo.

O que os dados do PSG e do Real Madrid sugerem, quando colocados lado a lado, é que o Mbappé pode estar no segundo grupo.

Não porque ele seja mau profissional no sentido clássico. Ele treina. Ele marca gols. Ele aparece em jogos grandes.

Mas em dois clubes, com anos de distância e contextos completamente diferentes, o padrão se repete: vestiário racha, títulos grandes escapam, e quando ele vai embora, o ambiente respira.

Isso pode ser coincidência.

Ou pode ser padrão.

E em futebol, quando um padrão aparece duas vezes seguidas, no mesmo protagonista, com os mesmos sintomas, a gente costuma chamar de diagnóstico.

Por Karine Mendes | Coluna Aos 45 | Notisul 

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