Notisul | Maio de 2026
Deixa eu te fazer uma pergunta rápida.
Quando você ouve que a Alemanha ganhou quatro Copas do Mundo, o que vem na cabeça? Organização. Sistema. Estrutura. Um país que leva o futebol a sério de ponta a ponta, da escolinha ao profissional.
Agora quando você ouve que o Brasil tem 1.455 jogadores espalhados em 135 ligas ao redor do mundo, o que vem na cabeça?
Provavelmente nada.
Porque a gente trata esse número como paisagem. Como se fosse natural. Como se fosse automático.
Não é.
O número que ninguém celebra
O CIES Football Observatory divulgou em maio de 2026 os dados de exportação de jogadores por país. O Brasil lidera. Pelo sétimo ano consecutivo.
1.455 brasileiros jogando fora do país. A França vem em segundo com 1.275. A Argentina, atual campeã do mundo, em terceiro com 1.066. Argentina mais França juntas somam 2.341. O Brasil sozinho chega a 1.455.
Não é liderança. É hegemonia.
No Mundial de Clubes de 2025, o Brasil mandou quatro times, todos passaram da fase de grupos, e o país foi o que mais tinha jogadores na competição: 142 atletas. Quase a soma do segundo e do terceiro colocados juntos.
Alguém está vendo isso?
A ginga que ninguém ensina. A disciplina que ninguém oferece.
Existe uma coisa que o Brasil faz diferente de todo mundo. E que não tem como comprar, replicar ou ensinar em centro de treinamento europeu.
O brasileiro aprende a jogar na rua. No campo de terra. No futsal improvisado entre duas pedras. Esse ambiente cria criatividade, improviso, leitura de jogo instintiva. A ginga não é ensinada. É vivida.
Mas talento sem desenvolvimento não chega ao seu teto.
Nem Messi chegou a cem por cento do que poderia ser só com talento. O que fez Messi ser Messi foi o talento mais a estrutura da La Masia, mais a disciplina de treino, mais a análise técnica, mais anos de formação cuidadosa. O talento foi a semente. O sistema foi o solo.
O Brasil tem a melhor semente do mundo.
E ainda planta em areia.
A Europa não é vilã. É espelho.
É muito fácil olhar para os clubes europeus e enxergar quem vem aqui tirar o que é nosso. Mas não é isso que acontece.
Os europeus chegam com olheiros qualificados, identificam talentos que aqui não teriam estrutura para crescer, e dão exatamente o que falta: centro de treinamento de alto nível, psicólogo, nutricionista, análise de vídeo, tempo de desenvolvimento sem pressão por resultado imediato. Muitas vezes emprestam o jogador para o time B, em segunda divisão local, para ele ganhar experiência com calma.
Eles não estão roubando ninguém. Eles estão dando oportunidade que aqui não existe.
E isso é o que mais dói. Não a saída do jogador. É saber que ele precisou ir embora para chegar onde chegou.
A disparidade que o Brasil insiste em ignorar
Aqui é preciso ser honesto. O futebol brasileiro não é um bloco uniforme.
O Flamengo fatura perto de dois bilhões de reais por ano. Tem estrutura, tem centro de treinamento, tem departamento médico, tem academia de base. É um clube que compete com os grandes do mundo em capacidade de gestão.
E ao mesmo tempo, o Mirassol sobe para a Série A sem dívidas, com CT pago e projeto claro, sendo exceção que virou case de estudo.
Entre um e outro, dezenas de clubes sobrevivem no limite. Não por falta de talento nas categorias de base. Por falta de estrutura para desenvolver o que descobrem.
A disparidade no Brasil é tão profunda que a gente não pode falar em futebol brasileiro como se fosse um sistema único. São vários futebolzinhos operando com realidades completamente diferentes, dentro do mesmo campeonato.
A raiz do problema tem nome e endereço
A CBF criou em fevereiro de 2026 um grupo de trabalho para melhorar as categorias de base. É necessário. É tardio. E é o retrato exato do problema.
Enquanto a Alemanha tem o modelo de formação profissionalizado há décadas, enquanto a França tem uma rede de centros de excelência que descobriu Mbappé, Kanté, Pogba, o Brasil ainda está discutindo em 2026 como deveria funcionar a base.
Não é falta de talento. Nunca foi.
É falta de política séria para o esporte. É CBF historicamente marcada por politicagem, por interesses que não são os do futebol, por gestão que serve a quem está no poder em vez de servir ao atleta que está em campo.
O Brasil tem o maior celeiro de talentos do mundo. E a entidade que deveria cuidar desse celeiro ainda não tem uma estrutura profissional de formação que seja digna do talento que nasce aqui.
Isso não é descuido. É escolha.
A pergunta que fica
1.455 jogadores brasileiros no exterior provam uma coisa só: o Brasil fabrica talento em quantidade e qualidade que o mundo inteiro quer consumir.
A pergunta não é se o Brasil produz bem.
A pergunta é por que o Brasil segue entregando o talento bruto para outros lapidarem, gerarem receita e colherem reconhecimento.
O jogador brasileiro nasce com a ginga. Com a malícia. Com a leitura de jogo que nenhuma metodologia europeia consegue ensinar do zero.
O que ele não encontra aqui é a disciplina, a estrutura e a gestão séria que transformam talento nato em excelência sustentada.
E enquanto isso não mudar, o Brasil vai continuar sendo o país mais admirado do mundo no futebol.
Do lado de fora do campo.
Por Karine Mendes | Coluna Aos 45 | Notisul | Maio de 2026
