Por Karine Mendes
Domingo, 5 de julho. MetLife Stadium, Nova Jersey. Noruega 2 x 1 Brasil. Fim de linha nas oitavas de final, mais uma vez diante de uma seleção europeia, a sexta Copa seguida em que isso acontece, numa sequência que começou em 2006.
Antes de eu abrir a boca, deixa eu te contar o que o mundo disse. Porque tática, estratégia e leitura de jogo eu deixo pra quem entende disso de verdade. A minha contribuição é outra: ler tudo, de todo canto, antes de formar opinião.
O que disse a imprensa internacional
Fui atrás dos jornais mais influentes do planeta.
Nos Estados Unidos, o The Athletic, braço esportivo do New York Times, resumiu tudo numa manchete pergunta: “O que deu errado para o Brasil?”. O texto lembra que essa é a pior campanha brasileira desde 1990, quando a seleção também caiu nas oitavas.
Na Inglaterra, o The Guardian abriu com humor britânico: “Vamos precisar de um barco maior”, brincando com o filme Tubarão pra falar do estrago que Haaland fez. O texto credita ao técnico norueguês Stale Solbakken a leitura tática que quebrou a defesa brasileira no segundo tempo.
Na Espanha, o Marca estampou que “os vikings conquistaram a América”, chamando Haaland de imparável, já artilheiro da Copa com sete gols. Já o AS usou o subtítulo “Sayonara, Neymar” pra ironizar que o gol de honra do camisa 10, de pênalti nos acréscimos, só teve valor estatístico, e criticou a escalação de Ancelotti com quatro atacantes.
Na Alemanha, o Bild destacou a atuação do goleiro norueguês Nyland, hoje sem clube, que segurou praticamente tudo que o ataque brasileiro produziu, e tratou a queda como mais um capítulo do tabu brasileiro contra times europeus.
Na França, o L’Équipe resumiu tudo numa manchete seca: “Mais um erro do Brasil”. O texto reconhece a pressão brasileira em trechos do jogo, mas chama a eliminação de melancólica.
Em Portugal, o A Bola publicou “Schjelderup e Haaland deixam o Brasil lavado em lágrimas”, lembrando que essa é a primeira vez, em seis Copas seguidas, que o Brasil não é campeão.
Na Argentina, o Olé brincou com o sobrenome do artilheiro norueguês na manchete “Jaaaaaaaland: Brasil fora do Mundial”, argumentando que a eliminação marca o fim de um estilo de jogo historicamente associado ao Brasil, e apontando o pênalti perdido por Bruno Guimarães como o momento que abalou psicologicamente o time. Já o Clarín foi mais direto: “Haaland foi uma locomotiva e levou a Noruega às quartas de final”.
No México, o Récord recorreu à mitologia nórdica: “Como um raio lançado por Thor em Nova Jersey, o conjunto viking surpreendeu o mundo”, e criticou a postura dos jogadores brasileiros, atribuindo a queda à soberba.
Dez jornais, dez ângulos. Mas o fio que une quase todos é o mesmo: choque genuíno com a queda brasileira e reverência ao futebol norueguês.
O que disseram os protagonistas
Aqui, prefiro ouvir quem estava em campo, porque a opinião deles pesa muito mais que a minha.
Marquinhos, capitão em campo, assumiu a responsabilidade em entrevista e pediu paciência com os mais jovens do elenco. Alisson defendeu o volume de jogo do time e a decisão de Bruno Guimarães cobrar o pênalti perdido no primeiro tempo, lembrando que erro faz parte do futebol. Ancelotti chamou a derrota de início de um novo ciclo, não de fim, e disse considerar bom o trabalho feito até aqui.
E teve a cena que resume a dor da noite: Neymar, aos 34 anos, marcou o único gol brasileiro, de pênalti, já nos acréscimos, e ainda em campo avisou que aquele foi seu último jogo pela Amarelinha. “Tentei, tentei. Agora acabou”, disse.
Não encontrei declaração fresca de Ronaldo, Ronaldinho ou Kaká sobre esta eliminação específica. O que encontrei foi a imprensa invocando o nome dos três, ao lado de Adriano, o “quadrado mágico” de 2006, como lembrança de uma era em que o Brasil tinha um talento que resolvia sozinho.
E agora, a minha opinião (que ninguém pediu)
Ao contrário de muita gente, eu não vou dizer que o Brasil não lutou. Dá pra ver no choro de Neymar, no choro de Casemiro, na fala de Marquinhos assumindo o erro na entrevista.
A gente perdeu um pênalti, sim, Bruno Guimarães, no primeiro tempo. E converteu outro, com Neymar, no fim de jogo. Entre um lance e outro, o time teve chances. Só não foi eficiente o bastante lá na frente, que a gente sabe, é o que decide jogo de mata mata.
Mas o futebol é assim. Um dia é da caça, outro é do caçador. Ninguém fica no topo pra sempre.
E aqui vai um dado pra te enaltecer, não pra te consolar: desde 1930, já foram 23 edições de Copa do Mundo. E o Brasil é o único país que jogou todas elas, sem exceção. Cinco títulos em 23 edições. Isso é 22% de tudo que já rolou de Copa do Mundo desde que ela existe. Nenhum outro país chega perto disso. Nem de longe.
Alemanha, tetracampeã, caiu ainda mais cedo do que nós nessa Copa, eliminada pelo Paraguai já na fase de dezesseis avos, nos pênaltis. Itália, tetracampeã também, está de fora pela terceira edição seguida, nem chegou a jogar.
E tem outra coisa que eu acho que a gente esquece de falar: a gente não ficou pra trás. O resto do mundo é que aprendeu a jogar vendo a gente jogar.
Pega o Japão. Até o início dos anos 90 o futebol japonês era amador, sem tradição nenhuma. Aí veio Zico jogar no Kashima Antlers, virou ídolo, ajudou a nascer a J-League, e depois voltou como técnico da seleção japonesa e levou o Japão à Copa de 2006. Depois dele vieram Toninho Cerezo, Oswaldo de Oliveira, Jorginho, Dunga, cada um deixando um pedaço de Brasil no meio de campo japonês. Um jornalista que estuda essa história resume bem: a relação entre o futebol brasileiro e o japonês é de professor pra aluno. E hoje o Japão já nos dá trabalho de verdade, inclusive nesta mesma Copa.
Isso é o Brasil sendo o país do futebol na prática, não só no discurso. A gente não perdeu relevância, a gente exportou ela. Hoje, no Mundial de Clubes, o Brasil tem disparado o maior número de jogadores em campo entre todos os países, 142, quase a soma do segundo colocado, a Argentina, com 104, e do terceiro, a Espanha, com 54.
Dói perder pra Noruega? Dói. É frustrante? É. Mas “ninguém vive de passado” não significa que o passado não conte nada. Significa que ele não nos dá o direito de ganhar sempre, e ninguém ganha sempre, em nada na vida.
Aceitar a derrota como parte do processo é diferente de aceitar a mediocridade. Ancelotti segue contratado até 2030, quando a Copa será disputada na Espanha, em Portugal e no Marrocos. Ele vai ter quatro anos pra trabalhar essa geração, a mesma que chorou em campo depois do apito final, o que já é sinal de que vontade não faltou.
A gente é brasileiro. A gente não desiste depois de uma queda só porque ela dói.
E fica a pergunta que eu acho que ninguém quer responder em voz alta: se a gente parar de repetir “o Brasil é o país do futebol” como um verso decorado, e perguntar de verdade o que a gente construiu nos últimos 24 anos pra merecer segurar essa frase de novo, a resposta vai nos deixar orgulhosos, ou com vergonha?
