COLUNISTAS | AOS 45 | KARINE MENDES
Notisul | 20 de junho de 2026
Deixa eu te fazer uma pergunta rápida.
Ontem à noite, o Brasil venceu o Haiti por 3 a 0 na Copa do Mundo. Quem fez os gols?
Se você respondeu Vinicius Júnior, errou.
Se você respondeu Raphinha, errou. Ele saiu lesionado ainda no primeiro tempo.
Se você respondeu Endrick, errou também. Ele marcou, mas o gol foi anulado por impedimento.
Quem fez dois gols foi Matheus Cunha. O terceiro foi construído por Paquetá, que roubou a bola no campo defensivo, combinou com Vini Jr, que lançou Cunha em velocidade, e o camisa 9 finalizou.
Um gol de Matheus Cunha. Com assistência de Vinícius Júnior. Após roubada de Lucas Paquetá.
Três jogadores em um gol.
E mesmo assim, o debate depois da partida foi sobre Vini ter sido bem ou mal. Sobre Raphinha ter saído. Sobre Endrick ter gol anulado.
A gente ainda não aprendeu a ver time.
O problema não é o jogador. É o olhar.
Esse padrão vem de longe e ele nos prejudica mais do que a gente percebe.
Quando o Brasil vai bem, a gente elege um herói. Quando vai mal, a gente elege um culpado. Sempre um nome só.
Vini não jogou bem? A Seleção está perdida.
Raphinha errou? O time inteiro falhou.
Endrick não entrou? Ancelotti não sabe nada.
Mas o futebol não funciona assim. Nunca funcionou.
2002. O time que a gente esqueceu de lembrar.
Todo mundo lembra de Ronaldo em 2002. Os dois gols na final contra a Alemanha. O sorriso. A volta por cima.
Mas quem se lembra do resto?
Kleberson, o volante do Athletico-PR, foi titular absoluto e um dos melhores da Copa.
Gilberto Silva blindou a zaga durante o torneio inteiro. Marcos pegou pênalti na semifinal contra a Inglaterra. Roberto Carlos subia e descia a lateral com uma energia que não se mede. Cafu foi eleito o melhor lateral do torneio.
Sete jogadores diferentes marcaram gols naquela Copa.
Ronaldo fez 8. Rivaldo fez 5. Ronaldinho fez 2. E mais quatro nomes diferentes completaram a lista.
Não era um time com um craque. Era um time com vinte e três jogadores que sabiam exatamente o papel de cada um.
Luiz Felipe Scolari não tinha titular absoluto. Tinha sistema. Tinha coletivo. Tinha confiança distribuída.
E quando você distribui a responsabilidade, ninguém afunda sozinho.
E ninguém precisa carregar o mundo nas costas.
O que os dados do Haiti dizem que ninguém falou
Na estreia contra o Marrocos, o Brasil completou 449 de 514 passes. Precisão de 87%.
Gabriel Magalhães e Marquinhos venceram 75% das disputas aéreas. Douglas Santos liderou em recuperações de bola com sete desarmes e ainda criou um passe-chave.
Não é glamouroso. Não dá manchete.
Mas é o que constrói vitória.
Contra o Haiti, Paquetá roubou a bola no campo defensivo e deu início ao lance que virou gol. Não é função de Paquetá roubar bola. Mas foi o que o time precisava naquele momento, e ele fez.
Ancelotti escalou Matheus Cunha no lugar de Igor Thiago. Todo mundo achou estranho. Cunha fez dois gols.
O técnico mais campeão da história da Champions League sabia o que estava fazendo.
A gente que não sabia.
Por que a gente insiste em reduzir?
Pensa em qualquer empresa que funciona de verdade.
Não é o CEO que atende o cliente. Não é o diretor que resolve o problema técnico. Não é o nome na porta que faz o produto ser bom.
É o time inteiro fazendo o que precisa ser feito no momento certo.
O futebol é exatamente igual.
O gol sai porque o lateral ganhou a corrida e cruzou. Porque o volante pressionou o adversário errado. Porque o centroavante fez o movimento na hora certa. Porque o meia encontrou o espaço que estava ali faz três jogadas.
O gol tem um nome. O gol tem dez autores.
E quando a gente para de enxergar isso, a gente para de entender futebol de verdade.
A Seleção que precisa ser julgada como time
Esse Brasil de 2026 tem Vinícius Júnior no auge, sim.
Tem Raphinha capitão do Barcelona. Tem Bruno Guimarães controlando o meio do Newcastle. Tem Gabriel Magalhães liderando a zaga do Arsenal. Tem Alisson entre os dois melhores goleiros do mundo.
Tem profundidade real no banco. Matheus Cunha. Rayan. Luiz Henrique. Andrey Santos.
Tem um técnico que sabe gerir ego, distribuir minutagem e criar ambiente de confiança.
Vini pode ter um jogo ruim. Raphinha pode se machucar. Endrick pode ter o gol anulado.
E o Brasil pode ganhar assim mesmo.
Ganhou ontem.
Porque quando um nome falha, outro aparece.
É assim que time funciona.
O que a gente precisa aprender antes das oitavas
Não existe Copa ganha por um jogador.
Nenhuma.
Messi precisou de Di María na final de 2022. Ronaldo em 2002 precisou de Gilberto Silva por trás e de Rivaldo ao lado. Pelé em 1970 precisou de Gerson e Tostão compondo com ele.
O que separa os campeões não é ter o melhor jogador do mundo.
É ter o melhor time do mundo jogando como time.
Então para de esperar que o Vini salve. Para de decretar que o Raphinha afunda. Para de cobrar do Endrick o que é responsabilidade de vinte e seis.
Torce pro Brasil.
Não pro camisa 11. Não pro camisa 7. Não pro camisa 9.
Pro Brasil.
Que é todo mundo junto.
Inclusive o Matheus Cunha, que ontem fez dois gols enquanto a torcida cobrava quem não estava em campo.
Por Karine Mendes | Coluna Aos 45 | Notisul | 20 de junho de 2026
