Alberto estava muito estressado, precisando respirar novos ares. Não aguentava mais a rotina naquela selva de pedra em que passava a maior parte de seus dias. Resolveu então convidar sua esposa para fazerem algo diferente.
– Querida, vamos acampar? Perguntou ele, tentando esconder o estresse que faziam suas mãos tremerem feito um cachaceiro com crise de abstinência.
– Que bom, estava louca para fazer algo diferente! Quando nós vamos?
– Agora mesmo!
– Nossa! Como você é decidido – disse ela, enquanto esfregava as mãos nas bochechas rosadas de impaciência do marido.
Colocaram todos os apetrechos dentro e em cima do veículo e seguiram para um camping situado à beira mar. Chegando ao local, Alberto escolheu o melhor ponto para armar a barraca que serviria de abrigo. O problema é que o guri não nascera com aptidão nem para abrir uma lata de sardinha, imagina para montar alguma coisa! Duas horas se passaram e o cara estava ainda tentando entender os desenhos do manual de instrução. De repente, sua impaciência urbana veio à tona novamente. Sentiu um calor brotar do fundo de seu intestino delgado, subindo lentamente pelo diafragma encanando no esôfago e logo despontando num grito avassalador garganta afora. Precisava descontar sua raiva em alguma coisa. Saiu correndo e desferiu um golpe certeiro com o membro inferior no pináculo de sustentação de abrigo campestre- de um sujeito que também estava acampado por ali.
– Ô rapaz, tu já chega chutando o pau da barraca? – exclamou assustado um sujeito que estava deitado dentro da construção provisória, sem entender os motivos do pontapé.
Alberto acalmou os nervos e percebeu que tinha pisado na bola. ‘Agora que a esposa do suíno faz um movimento helicoidal com seu apêndice caudal’ – pensou o estressado (agora que a porca torce o rabo!). Mas antes que Alberto pudesse balbuciar qualquer palavra, sua esposa foi logo se desculpando por ele, e tudo se apaziguou.
– Você está muito nervoso, precisa se acalmar! – falou o sujeito para Alberto.
Depois de alguns conselhos, ainda convidou o desequilibrado para pescar no final da tarde, visto que se trata de uma ótima terapia. – Logo você me ajuda a catar algumas minhocas, o resto deixa comigo.
Depois de decifrar aquele código secreto que era o manual de instrução de montagem da barraca, Alberto finalmente conseguiu colocar aquela joça de pé. ‘Eis que chegou a hora de horizontalizar esqueleto e permitir a conjunção de cílios superiores e inferiores’ – pensou, fazendo menção em descansar um pouquinho. Mas, antes que pudesse sair da vertical e entrar na horizontal, o sujeito da barraca cutucou suas costelas com o cabo de uma enxada.
– Vamos catar minhoca, rapaz! Precisamos pegar uns bagres graúdos pra fazer um ensopado e tocar uma viola sob a luz do luar no romper da madrugada.
– Ô coisa boa! – disse Alberto, sem saber se aquelas palavras que saíam de sua boca eram sarcásticas ou de alegria.
Bateu com a lâmina da inchada na terra virgem e logo descobriu que cada enxadada era uma minhoca.
– Segura esses! – disse o sujeito, passando alguns oligoquetos para Alberto colocar no pote.
Pegou os anelídeos com uma das mãos e pensou: ‘Esse bicho é mesmo um absurdo, não tem pé nem cabeça!’
– Chega! Temos isca suficiente para sustentar um tubarão. Vamos para a lagoa pegar uns bichanos.
Na lagoa, Alberto mal sabia espetar a minhoca no anzol.
– Monstro, fica rebolando pra escapar da empalação! Esse verme está querendo me vencer pelo cansaço. Pensa que vou desistir? ‘Pode retirar o filhote de equino da precipitação pluviométrica’ (tirar o cavalinho da chuva).
– Ora, Alberto! Chega de ‘colóquios flácidos para acalentar bovinos’ (conversa mole pra boi dormir). Vamos à pesca!
Algum tempo depois, os dois estavam com os molinetes devidamente municiados e mergulhados dentro da lagoa, aguardando a fisgada que os tiraria daquele silêncio profundo, típico dos mais hábeis pescadores.
– Mordeu! – disse Alberto, emocionado.
– Puxa, devagar, mata ele pelo cansaço! – falou o sujeito.
Ao final de uma luta incessante com o bagre, Alberto conseguiu trazê-lo para terra firme. Tirou o anzol da boca do peixe e ergueu o bicho para o alto como se fosse um troféu. Mas o imprevisto provém a todos, principalmente aos incautos, o bagre deu uma sacudida violenta e enfiou a espora em sua mão, caindo dentro da lagoa e nadando para a liberdade novamente.
– Mas que inferno! – esbravejou o imprudente.
– De nada adianta ‘exprimir pranto pela perda do segregado das glândulas mamárias da fêmea dos mamíferos’ (Chorar pelo leite derramado).
Continue a pescaria – disse o sujeito, sem se importar com o peixe que foi perdido.
Alguns meses depois.
– Era uma pessoa muito boa, pena que se estressava facilmente. Teve mais uma daquelas crises, mas dessa vez foi fulminante – disse a esposa de Alberto para as muitas pessoas que estavam acompanhando o velório do silencioso e calminho defunto – enquanto era acalentada pelo sujeito do camping.
Se Alberto estivesse ainda vivo, pensaria: a fêmea de linhagem dos bovinos caiu no terreno úmido, frio e pantanoso. (A vaca foi para o brejo).

