quarta-feira, 28 janeiro , 2026

Ainda há amor na camisa ou é tudo pelo dinheiro?

Toda janela de transferências traz à tona uma expectativa que o futebol insiste em alimentar e, ao mesmo tempo, em frustrar. A de que ainda existe algo puro ali. Que jogadores escolhem com o coração. Que permanecem fiéis a uma camisa mesmo quando o mercado aponta para outro lado.

Essa expectativa reaparece todo ano.
E todo ano esbarra no mesmo ponto: o futebol é um ambiente de trabalho.

Quando a janela abre, o que se vê não é traição nem deslealdade. É movimentação profissional. Declarações são feitas, negociações acontecem, discursos se ajustam. O torcedor observa tudo isso tentando traduzir decisões de carreira em sentimentos. E aí nasce o ruído.

Talvez a pergunta não seja se ainda há amor na camisa.
Talvez a pergunta seja por que a gente espera que o amor apareça onde o que está em jogo é emprego.

Carreira não é sentimento. É construção

O futebol profissional funciona como qualquer outro mercado de alta exposição. Contratos, metas, riscos físicos, tempo curto de carreira, avaliação constante. O jogador não escolhe apenas onde jogar. Ele escolhe como organizar sua trajetória dentro de um sistema que não permite erro prolongado nem instabilidade emocional pública.

Isso muda completamente a forma de ler o comportamento dos atletas.

Gabigol ajuda a entender esse mecanismo com clareza. Em todos os clubes pelos quais passou, o discurso foi parecido. Ao chegar, ele fala bem. Diz que gosta do clube. Que está feliz. Que ali é especial. No Flamengo, no Cruzeiro, no Santos.

E está tudo certo nisso.

Toda troca de emprego vem acompanhada desse tipo de discurso. Em qualquer profissão. A diferença é que, no futebol, essa entrevista acontece diante de milhões de pessoas. O mercado inteiro assiste. Torcedores assistem. Ex-colegas assistem. Dirigentes assistem.

O jogador não está abrindo o coração.
Está assumindo um cargo.

Sempre será “o melhor clube”. Sempre será “o projeto certo”. Não por falsidade, mas porque essa é a linguagem mínima de qualquer relação profissional saudável. Ninguém começa um novo trabalho dizendo que gostava mais do antigo.

O desconforto não está no que é dito.
Está no fato de tudo ser público.

Decisão raramente é individual

Outro equívoco comum é tratar negociações como escolhas solitárias. O caso de Kaio Jorge ilustra bem isso. Não houve uma recusa pessoal ao Flamengo. Houve uma decisão institucional. A diretoria não quis negociar nos termos propostos. Valor, contrato, estratégia.

No futebol, quase ninguém decide sozinho.

O jogador é um ativo. Um produto. Um investimento. Ele está inserido numa cadeia que envolve clubes, empresários, contratos e timing. Não existe “vou jogar de graça porque quero”. Existe negociação.

Personalizar esse processo como escolha emocional é ignorar como o mercado realmente funciona.

Gerson como exemplo estrutural

Se existe um jogador que explica essa lógica com precisão, é Gerson.

Revelado pelo Fluminense, vendido cedo para a Roma, chegou ao Flamengo em 2019 por cerca de 13 milhões de euros. Tornou-se protagonista, conquistou títulos, valorizou-se. Em 2021, foi negociado com o Olympique de Marseille por aproximadamente 20,5 milhões de euros. Em 2023, voltou ao Flamengo por algo em torno de 15 milhões de euros. Em 2025, foi vendido ao Zenit por 25 milhões de euros, uma das maiores vendas da história do clube. Em janeiro de 2026, retornou ao Brasil em uma operação que chegou a 30 milhões de euros, rumo ao Cruzeiro.

Somadas as principais transferências, Gerson já movimentou mais de 120 milhões de euros em valores de mercado.

Ele saiu, voltou, saiu de novo, voltou outra vez. Cada movimento gerou uma leitura diferente. Mas, olhando sem romantizar, o que existe ali é uma carreira sendo conduzida dentro de um mercado global, com picos de valorização e janelas estratégicas.

Se em cada passagem ele tivesse se comprometido publicamente com discursos emocionais definitivos, talvez tivesse fechado portas. No futebol, exposição sentimental excessiva não protege carreira. Muitas vezes, limita.

O problema não é o discurso. É a leitura

Quando um jogador diz que está feliz em um clube, ele está dizendo algo simples: que está comprometido com o trabalho que vai executar ali. Isso não invalida sentimentos passados. Só os mantém fora do espaço público.

O futebol não lida bem com vulnerabilidade emocional explícita. Tudo vira interpretação. Tudo vira julgamento. Qualquer frase vira arma. Por isso, o discurso tende a ser funcional, neutro, ajustável.

Gerir a própria imagem faz parte do trabalho.

O episódio da coletiva no Santos, em que membros de torcida organizada disseram algo como “a diretoria não queria você aqui, mas a gente vai te apoiar”, ajuda a entender o absurdo dessa exposição. Imagine chegar a uma empresa, dar uma entrevista pública, e ouvir de colegas que a diretoria não te queria ali. Em qualquer outro setor, isso seria constrangimento institucional.

No futebol, virou rotina.

Não é crítica. É realidade

Nada disso é uma crítica ao torcedor. Nem ao jogador. Nem ao esporte.

É apenas reconhecer que o futebol é um ambiente de trabalho com visibilidade extrema. O que em outras profissões é privado, aqui vira espetáculo. A entrevista de emprego é coletiva. A negociação vira manchete. A adaptação vira julgamento.

O jogador fala o que precisa ser dito para trabalhar em paz.
E ele está certo em fazer isso.

Onde o amor realmente está

Quem ama a camisa é o torcedor.
O jogador tem contrato.

Isso não diminui ninguém. Só organiza expectativas.

Talvez ainda exista amor. Mas ele não aparece em coletiva. Ele surge depois, quando a carreira permite, quando o risco diminui, quando o mercado deixa de ditar cada passo.

Antes disso, o que existe é trabalho.
E tratar trabalho como romance costuma gerar frustrações desnecessárias.

Porque no futebol, como em qualquer outro mercado,
quem tem amor à camisa é torcedor.
O resto é todo mundo funcionário.

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