sábado, 18 julho , 2026

As coisas escondidas

Os momentos emocionantes que nos envolvem nos propiciam revelarmo-nos a nós mesmos. Nessas ocasiões podemos nos surpreender com o que dizemos, fazemos ou calamos; em última instância, com quem somos.

Ainda que não nos reconheçamos ou até nos neguemos nesses instantes, como se estivéssemos desprovidos de responsabilidade, somos nós que estamos lá, inteiros e convictos da razão nos nossos dizeres, fazeres e calares.

Atos corajosos, omissões convenientes, covardias inconfessáveis. Belezas ou feiuras, o que perpetramos somos nós próprios em gesto ou omissão. E consequências. Quando ao cabo nos desgostamos, malditas consequências.

Mas o que se nos revela é o que somos. Eis-nos nas nossas coisas: nas vistas e nas escondidas. Nem mais nem menos do que nossos cometimentos. Nossas condutas são o que somos. Somos o ato, não a explicação.

O momento político foi emocionante, e nós, nele, nos emocionamos. É bom que façamos política, pensemos na gerência dos destinos do País com emoção. Alguns, contudo, passaram demais da conta. Perderam a razoabilidade.

Política, vida pública, há que se compenetrar. Muita gente, entretanto, encontrou-se desbussolada, soltou suas coisas de guardar escondidas. Elas só se vão dar em si lá bem depois da hora da persuasão civilizada do outro. Será tarde.

Nas contas tardias, as pessoas se justificam, manobrando pretextos para ver correção nos seus atos canalhas. Poucos purgarão vergonha. A maioria recolherá suas coisas feias até a próxima oportunidade de soltá-las contra alguém.

Dois ódios predominantes: os bolsonaros e os petistas. Ambos procederam como se seus oponentes não tivessem o direito de escolher posição. Insultaram o adversário como se sua opção contivesse intrinsecamente um mal.

Os bolsonaros cominaram a seus oponentes escolhas impatrióticas, depravação moral, defesa de bandidos, alianças internacionais suspeitas. Os petistas conferiram a seus antagonistas, ou equívoco, ou preconceito, ou fascismo.

É bem verdade que dentre os bolsonaros há uma banda exaltada boçal sem respeito por maneiras democráticas, direitos fundamentais, diversidade. Bolsonaro mesmo foi arauto inconsequente de um discurso ultraconservador.

Os petistas, que, aliás – é importante dizê-lo –, não formam o total do contingente que se opôs a Bolsonaro, posam de titulares cogentes do voto discernido. Falam e agem pretendendo que só um equivocado não votaria no PT.

Geralmente, a direita é saudosista de um passado conservador – Bolsonaro o é e o declara. O seu eleitor, todavia, está convicto que com a pureza de caráter e firmeza de princípios de seu candidato o Brasil será “regenerado”.

Bobagens. A Ditadura foi um horror. Durou enquanto era do interesse estadunidense. Ao cair, deixou um triste saldo de torturados, mortos, corrupção, desmandos, dívida social. E Bolsonaro, ainda bem, não vai “regenerar” nada.

Usualmente, a esquerda discursa para o futuro. O petismo discursou sobre o passado, mistificando seu tempo de governo, ludibriando com números que o próprio IBGE desmente (Dilma tentou impedir publicação de dados).

Ora, Haddad só logrou subir nas pesquisas acima dos 30% históricos do PT porque a oposição a Bolsonaro cerrou apoio a seu nome, como única alternativa, aliás. Mas um bom contingente que o apoiou não é petista de jeito algum.

O candidato, ademais, para granjear adesão, renegou petistas históricos, deixando, inclusive, de buscar conselhos com o “chefe” presidiário. No programa de governo fez mudanças sem as quais estaria fadado ao isolamento.

Aos petistas falta a humildade de quem teve o partido desbaratado sob a pecha de organização criminosa, com ex-presidentes e ex-tesoureiros na cadeia. Perseguição? Puro cinismo. Fato inconteste: bilhões foram recuperados.

As eleições nos trouxeram a um confronto. Poucas ideias, muitos insultos. O espírito do tempo não está bem. Muitos se apequenaram, expuseram suas coisas escondidas, essas que na vida cotidiana têm vergonha de assumir.

Não consigo atribuir superioridade aos modos insultuosos do autoritário de esquerda tão só porque certa esquerda se sente com licenças que a posição de esquerda lhe concederia. Licenças que não tem, nem deveria querer ter.

Tais e quais os jeitos da direita. A direita não tem que ser brutal, ainda que a história da direita brasileira seja truculenta. A esquerda que referi e a direita que aludo estiveram equivalentes no procedimento, e talvez se mereçam.

A sinistra exposição de coisas que devem ficar escondidas não está à altura da ideia de democracia representativa. Houve eleitores, eleições, candidatos. Ambos cumpriram as regras postas para o jogo; quem ganha leva.

É imperativo considerar que a vida política democrática pressupõe a derrota, mesmo para o adversário mais abominado. Não vale pensar que o resultado só é democrático quando vence o meu candidato. Aí, seria nomeação.

Fiz campanha e o mais que podia para derrotar Bolsonaro. E votei contra. Não foi voto no Haddad. foi voto contra certa mentalidade. Bolsonaro ganhou. Fico triste, mas, democraticamente, eu o reconheço presidente do Brasil.

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