domingo, 6 setembro , 2026

Brasileiros sem opção

Arrancados de sua pátria, atravessaram o oceano nos porões fétidos dos navios negreiros, acorrentados, negociados feito mercadorias. O produto não exigia grandes cuidados. Eram apenas escravos. As mulheres foram separadas dos filhos e maridos, família desfeitas, o leite, alimento essencial para as crias nos primeiros dias meses de vida, vertia dos seios negros e matava a fome dos herdeiros da Casa Grande.

Os livros contam a história do Brasil, e a chegada dos povos que contribuíram na formação da cultura nacional. O tráfico de escravos é parte dela. Deste modo, os afro-brasileiros sabem que é muito difícil resgatar qualquer informação precisa em relação aos antepassados vindos da África. Restam somente recortes históricos de um translado desumano. Informações vagas sobre a região onde os escravos foram capturados. Os descendentes de africanos, brasileiros, por imposição, jamais terão certeza sobre as origens culturais.

A mãe gentil ou pátria amada adotou este povo e o privou de uma dupla cidadania. Mas eles podem comemorar o 13 de Maio, lei de ouro assinada pela Princesa Isabel em 1888. O que comemorar? A liberdade foi mais cruel do que a escravidão. Lançou à própria sorte milhares de analfabetos, sem nome ou referências, cujas raízes culturais foram descartadas. Este é um país multicolorido, miscigenado, e preconceituoso.

O professor de história Paulo Henrique Lúcio analisa a condição do negro na sociedade, através de aspectos socioeconômicos e culturais. “Há algo errado no paraíso. Você entra numa sala de aula, a maioria é branca, mas sabemos que a grande parte da população é afro-descendente. Tem algo errado”, avalia Paulo.
Professor universitário e integrante do Movimento Cultural de Conscientização Negra Tubaronense (Mocnetu), Paulão, como é conhecido, afirma que os cidadãos desconhecem a história da colonização.

“Fui a trabalho a São Paulo, apresentei-me como catarinense e percebi o espanto. Muita gente pensa que em Santa Catarina só têm loiro e barriga verde”, explica. Ele atribui tal desconhecimento a forma como fomos educados. Diz que a criança negra, ao ingressar na vida escolar, não tem referências, já que os ídolos, os super-heróis, não são negros. “Eles nem sabem quem foi Zumbi de Palmares e o que é comemorado no dia 20 de novembro. Associam a figura do negro ao feio, perigoso, ao marginal”, observa o professor.

Paulão considera que a atitude dessas pessoas, apesar de preconceituosa, é um reflexo cultural, pois o negro não está dentro do padrão social para exercer certos cargos. A questão não é a capacitação, mas o olhar discriminatório do meio. “O negro freqüenta a escola pública até o ensino médio e os poucos que conseguem chegar à universidade entraram em uma instituição particular, pois a escola pública não o prepara suficiente entrar nas federais”, analisa o professor.
“O Brasil é um país que tem preconceito de ser preconceituoso”.

O brasileiro não admite que seja preconceituoso. Porém, piadas e discriminação estão impregnadas na sociedade. “É complicado para as pessoas, por exemplo, chegar à universidade e ver um professor negro. O negro tem que provar duas vezes que é capaz”, relata o professor Paulo Henrique. Falar sobre este assunto é abrir lacunas que a história tenta apagar. É complexo, porém, necessário.

Observando o período colonial, talvez responda algumas questões atuais. Uma delas é a formação das favelas. Fim da escravidão, a chegada dos imigrantes, estes ocuparam o lugar dos negros, não como propriedade, e sim como empregados. A eles não restou escolha, sobraram os morros, formaram-se os quilombos. A falta de oportunidade e o descaso com a raça negra é muito presente.

O negro não pode cultivar a religião como os outros imigrantes. A crença nos orixás ainda hoje é atribuída à magia negra ou coisa do mal.
E, às vezes, tem-se curiosidade e por medo das opiniões alheias preferem calar-se. “Quantas religiões fazem as suas ofertas ao Senhor, os protestantes, os católicos, e por que o negro não pode fazer seu ebó, que é parte da tradição africana”, questiona Paulo. O preconceito existe. É normal até certo ponto. É comum quando desconhecemos alguma coisa.

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