Temos que nos preparar para o nosso tempo. A cada ação, iniciativa, inovação posta em prática, implantada no mundo, muitas outras dela derivam e se colocam em movimento, movimentando a sociedade, a vida e a realidade. Assim, podemos, em nosso próprio tempo, nos defrontar com situações que têm origem em pensamentos e ações passadas e que exigem novas percepções e posturas. Desse modo, voltamos à indagação: Em que sentido devemos nos preparar para o nosso tempo?
Estamos vivendo o fenômeno da maior explosão de comunicação de todos os tempos. O atual processo de globalização, impulsionado pelas novas tecnologias de comunicação e informação, está interligando o mundo, estruturando a construção de uma sociedade multiétnica e, consequentemente, confrontando diferentes ideologias, culturas e conceitos. Há autores que falam em uma nova compressão do tempo-espaço, referindo-se ao fato de que hoje o distante pode estar aqui conosco e nós mesmos podemos ser transportados a locais distantes. No mesmo sentido, alguns outros autores falam da realidade atual como uma dialética entre o local e o global. Nesse contexto de multiculturalismo, o “Outro” passa a exigir maior compreensão. A convivência interétnica, inter-racial, intercultural exige no mínimo tolerância, mas precisa mesmo é de respeito no que o outro é como ser pleno em sua expressão e em seus direitos. Se não for assim, presenciamos cenários que não condizem com nossa evolução: xenofobismo, racismo, homofobismo e preconceito de todos os tipos. Avançamos em conhecimento e tecnologia, mas precisamos nos preparar para as consequências desse desenvolvimento, senão corremos o risco de ser “bárbaros tecnologizados”.
Passeando por vezes em redes sociais, nós nos defrontamos com “debates” que, pelo número de adesões, nos fazem crer que estamos novamente frente a uma era de fanatismo, intolerância, extremismo e fundamentalismo. Em cima de uma informação, sem saber se tem fundamento, explodem as opiniões nas redes sociais sem se preocupar com nenhuma consequência. Devemos nos preparar para uma aproximação, conhecimento e diálogo com o que se mostra diferente. A democracia, em suas raízes mais profundas, se alimenta do solo da tolerância e da convivência dos diferentes. A famosa frase atribuída ao célebre iluminista francês Voltaire, “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”, serviu para lapidar, já naquela época, o direito de expressão. Mas o direito de expressão não pode ser inconsequente, irresponsável, descomprometido com a construção de um mundo mais justo e mais humano para todos.
O respeito e a tolerância são pedras fundamentais na convivência democrática e humana. Há que se cuidar para não causarem um relativismo extremado em que tudo pode, depende do ponto de vista. Mas há que se fugir, sobretudo, da hegemonia de um pensamento único, como dizia o genial geógrafo brasileiro Milton Santos. Para tolerar, aceitar ou respeitar os pensamentos e ideais diferentes dos nossos, precisamos nos aproximar, dialogar e conhecer mais e melhor seus fundamentos. Temos algo que une a todos: antes de qualquer posicionamento ideológico, político ou cultural, somos pessoas com limites e imperfeições. Então, nestes tempos de amplas possibilidades de comunicação e expressão e convivência com infindáveis possibilidades de expressões, devemos nos preparar sim com civilidade e bom senso, expressando o que há de melhor em nós e não apenas vociferando impropérios em virtude de acharmos que o diferente nos ameaça. Ao contrário, muitas vezes pode nos completar, fazer-nos mais inteiros, mais íntegros e humanizados.

