quarta-feira, 17 junho , 2026

Nova pílula dobra sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas e emociona especialistas

Um novo medicamento oral para câncer de pâncreas metastático chamou a atenção da comunidade médica mundial durante a edição de 2026 da American Society of Clinical Oncology (ASCO), o maior congresso de oncologia clínica do mundo. Os resultados finais do estudo de fase 3 do daraxonrasib indicaram que o tratamento praticamente dobrou a sobrevida de pacientes que já não respondiam à quimioterapia convencional.

A apresentação dos dados ocorreu em Chicago, nos Estados Unidos, durante a sessão plenária do evento, considerada a mais prestigiada da programação científica. Segundo relatos de especialistas presentes, a divulgação dos resultados foi recebida com aplausos de pé por uma plateia formada por milhares de oncologistas e pesquisadores.

Estudo mostra ganho expressivo de sobrevida

O estudo RASolute 302 avaliou cerca de 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático. Os participantes foram divididos aleatoriamente entre dois grupos: um recebeu o daraxonrasib, administrado em comprimido diário, e o outro continuou com o tratamento quimioterápico convencional.

Os resultados considerados definitivos mostraram que pacientes com a mutação RAS G12 apresentaram sobrevida mediana de 13,2 meses, contra 6,6 meses entre aqueles tratados com quimioterapia.

Além disso:

  • O risco de morte foi reduzido em 60%;
  • O tempo até a progressão da doença passou de 3,5 para 7,3 meses;
  • Mais de 31% dos pacientes apresentaram redução mensurável dos tumores;
  • Apenas 1,2% interromperam o tratamento devido a efeitos adversos, contra 11,2% no grupo da quimioterapia.

Os resultados também foram consistentes quando analisado o conjunto total dos pacientes participantes do estudo.

Uma barreira histórica da medicina

O câncer de pâncreas é considerado uma das formas mais agressivas da doença. Em grande parte dos casos, o diagnóstico ocorre apenas em estágios avançados, reduzindo significativamente as possibilidades de tratamento curativo.

No Brasil, cerca de 13 mil novos casos são registrados anualmente. A doença também apresenta uma das menores taxas de sobrevivência entre os diferentes tipos de câncer.

Um dos principais desafios para os pesquisadores está na proteína RAS, presente em mais de 90% dos tumores pancreáticos. Quando alterada por mutações genéticas, essa proteína estimula o crescimento contínuo das células cancerígenas.

Durante décadas, cientistas tentaram desenvolver medicamentos capazes de bloquear esse mecanismo, mas os resultados foram limitados. Por isso, a proteína chegou a ser considerada “intratável” por muitos especialistas.

Especialistas apontam mudança de paradigma

Para oncologistas presentes na ASCO, os resultados representam um avanço significativo para pacientes que até então possuíam poucas alternativas terapêuticas.

O oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, destacou que raramente um medicamento reúne três características importantes ao mesmo tempo: impacto relevante na sobrevida, baixa toxicidade e um mecanismo de ação inovador.

Segundo ele, os resultados reforçam que novas estratégias para bloquear mutações da proteína RAS podem transformar o tratamento de tumores historicamente difíceis de controlar.

Aprovação regulatória é o próximo passo

A farmacêutica americana Revolution Medicines informou que encaminhará os resultados à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, para solicitar a aprovação do medicamento.

O daraxonrasib já recebeu o status de Breakthrough Therapy, concedido a tratamentos que demonstram vantagens substanciais em relação às opções disponíveis atualmente.

Além disso, o medicamento também possui designação de medicamento órfão e está incluído em programas de análise prioritária que podem acelerar o processo regulatório.

Quando o tratamento poderá chegar ao Brasil?

Ainda não existe previsão para disponibilização do daraxonrasib no Brasil.

Para que o medicamento possa ser comercializado no país, será necessária a análise e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Posteriormente, órgãos responsáveis pela incorporação de novas tecnologias na saúde suplementar e no sistema público também precisarão avaliar a inclusão do tratamento em seus protocolos.

Especialistas apontam que questões relacionadas ao custo poderão representar um desafio importante para a ampliação do acesso ao medicamento.

Apesar disso, os resultados apresentados em Chicago são vistos como um dos avanços mais relevantes dos últimos anos no combate ao câncer de pâncreas metastático.

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