Cerca de uma em cada cinco demissões no setor de tecnologia em 2026 está relacionada à adoção de inteligência artificial (IA), segundo relatório divulgado pela consultoria RationalFX. O levantamento aponta que 9.238 das 45.363 demissões registradas globalmente desde o início do ano ocorreram em empresas que citaram a IA como motivo principal para cortes de pessoal.
Os dados indicam uma mudança no perfil das demissões no setor. Após anos de ajustes financeiros no período pós-pandemia, empresas de tecnologia agora passam por uma nova fase de reestruturação baseada em automação e ferramentas de inteligência artificial.
Empresas citam automação para justificar cortes
Entre as empresas que anunciaram demissões associadas ao uso de IA, a que realizou o maior corte foi a Block, empresa de pagamentos fundada por Jack Dorsey.
A companhia eliminou 4.000 vagas, reduzindo seu quadro de funcionários de cerca de 10 mil para aproximadamente 6 mil colaboradores. Em publicação nas redes sociais, Dorsey afirmou que a decisão está ligada à ampliação das capacidades de ferramentas de inteligência artificial, capazes de executar tarefas antes realizadas por pessoas.
Outra empresa que realizou cortes significativos foi a WiseTech Global, companhia australiana de software de logística, que anunciou 2.000 demissões. Executivos da empresa afirmaram que a IA generativa está tornando métodos tradicionais de desenvolvimento e manutenção de código cada vez menos necessários.
Outras empresas que também registraram cortes relacionados à IA incluem:
eBay — 800 demissões
Pinterest — 675 demissões, cerca de 15% da força de trabalho
Oracle — 254 demissões
Estados Unidos concentram maior número de demissões
Segundo o relatório, os Estados Unidos concentram a maior parte das demissões globais no setor de tecnologia.
Ao todo, 30.846 cortes de empregos, o equivalente a cerca de 68% do total mundial, ocorreram em 43 empresas sediadas no país.
As áreas metropolitanas de Seattle e São Francisco foram apontadas como as mais impactadas.
Entre os casos mais expressivos:
Amazon confirmou cerca de 16 mil demissões corporativas em janeiro, representando mais da metade dos cortes no setor de tecnologia dos EUA neste ano;
Meta anunciou aproximadamente 1.500 demissões em sua divisão de realidade virtual Reality Labs.
Se o ritmo atual se mantiver, a RationalFX projeta que o total de demissões em tecnologia pode alcançar 265 mil vagas até o fim de 2026, superando as cerca de 245 mil registradas em 2025.
Especialistas questionam impacto direto da IA
Apesar do avanço da automação, parte dos analistas questiona se a inteligência artificial é, de fato, o principal fator por trás das demissões.
Uma pesquisa da consultoria Gartner, com 321 executivos da área de atendimento ao cliente, apontou que apenas 20% das empresas reduziram equipes diretamente por causa da IA. Na maioria dos casos, os cortes estariam ligados a condições econômicas mais amplas.
Outro levantamento, da Forrester, mostrou que 55% dos empregadores afirmaram ter se arrependido de demissões motivadas por IA.
Para Alan Cohen, analista da RationalFX, a transformação no mercado de trabalho já está em curso.
“À medida que a IA assume mais responsabilidades que antes eram desempenhadas por humanos, a questão não é mais se os empregos vão mudar, mas quando e como”, afirmou.

