domingo, 15 fevereiro , 2026

Educação: “O problema salarial interfere na qualidade”

Notisul – Durante a assembléia na última quinta-feira, os professores queixaram-se dos salários, mas disseram que estão receosos sobre entrar em greve. Qual é o motivo para tanta apatia?
Quinha
– Também gostaria de saber. A mobilização é algo que deve ocorrer, porque o nosso piso salarial é muito baixo, nossa remuneração não é boa. Muitas vezes, o professor olha para o próprio umbigo e pensa só no hoje. Mas eu penso muito no futuro. Tem um ditado que diz: é preciso viver o presente; isso também é importante, porém, precisamos ver o nosso futuro. E do jeito que está, o futuro é temeroso. O professor esquece, muitas vezes, que nada veio de graça, que tudo que conseguimos veio com mobilização, com greve, com luta.

Notisul – O problema salarial é um fator determinante para a qualidade da educação?
Quinha
– É importantíssima. Vivemos em uma sociedade capitalista e precisamos comprar coisas. O trabalhador precisa de um salário justo para suprir as suas necessidades. E pára nisso, não sobra dinheiro para o lazer, e isso é fundamental para manter a saúde. A falta de lazer reflete-se no dia-a-dia.

Notisul – Pode-se dizer que os professores estão doentes?
Quinha
– Exatamente. A categoria está doente, sim. Há estudos no país que comprovam este problema. Não há dados sobre este assunto em Santa Catarina. O governo não tem se perguntado sobre os motivos para os quais o professor está doente, reclama apenas que há muitas licenças de saúde. Podemos dizer que há isso também por causa do tempo de aposentadoria. Eu tenho uma colega que é mais jovem, mas começou a trabalhar mais cedo, tem 28 anos de profissão e não pode aposentar-se porque não tem idade. Isso desgasta o professor. Há um tempo, a Organização das Nações Unidas (ONU) dizia que o professor tem uma sobrecarga de trabalho. Então, ele deveria ter uma carga menor de trabalho, um salário maior. Eu acredito que, com isso, ele trabalharia mais contente. Mas as condições de trabalho também são importantes. Na Escola Jovem, eu tenho duas turmas com mais de 50 alunos, e o espaço físico não comporta. É difícil trabalhar nesta situação.

Notisul – A violência não está restrita aos grandes centros. Os professores denunciam quando são agredidos?
Quinha
– A violência aumenta a cada dia. Quando nós vamos para as reuniões do Conselho Deliberativo do Sinte, os relatos impressionam. São casos graves, de ameaças, agressões verbais e físicas, além do assédio moral. Ameaças indiretas do tipo “não vem marcando porque eu sei onde você mora, quem são seus filhos”. O professor não pode aceitar este tipo de provocação, mas também não pode expor-se demasiadamente. O governo tem que instituir uma política que minimize estes casos.

Notisul – Estamos em ano eleitoral. Você acredita que novamente as promessas na área da educação farão parte dos discursos dos candidatos?
Quinha
– Essa é uma decisão política. Há pessoas que dizem que não gostam de política, que não se interessam. Política com “p” maiúsculo é importante e boa, esta todos deveriam gostar. Educação, saúde e segurança são questões políticas também. Todo mundo promete mundos e fundos, mas, na hora de fazer, não se cumpre. O povo brasileiro precisa aprender a cobrar em que ele votou, seja na câmara de vereadores, assembléia, congresso…

Notisul – Por que muitas pessoas dizem que a escola pública é pior do que a particular?
Quinha
– Eu sempre digo que escola pública precisa ser melhor. Ela é paga pelos nossos tributos. Acredito também na educação e nos meus colegas de profissão. Tanto que os meus filhos sempre estudaram em escola pública. Os governos precisam preocupar-se com isto. Tanto é que a escola pública tem qualidade que Santa Catarina tem o segundo melhor ensino do Brasil. Contudo, o nosso salário é o quarto pior do país. Imagine o que poderíamos fazer se o salário fosse maior?

Notisul – A escolha da equipe diretiva deveria partir da comunidade?
Quinha
– Está sempre na pauta do Sinte a eleição direta para diretor. A escola fica na comunidade e ela deve manifestar-se sobre a educação dos seus filhos, a começar pela escolha do diretor. Nós defendemos a eleição direta. Os cargos comissionados funcionam muitas vezes como repressão contra manifestações e protestos dos professores, e isso ocorre sutilmente em alguns casos; em outros isso, é feito abertamente.

Notisul – Por que a criação do Instituto de Previdência está na pauta de reivindicações do Sinte?
Quinha
– A sociedade como um todo não sabe o que ocorre. Há um fórum de discussão entre os sindicatos de servidores e algumas discussões foram realizadas. O governo pretende criar dois fundos: um para quem está aposentado e que entrou no estado antes de 2003 e o outro fundo para quem entrou depois. O segundo fundo vai nascer ‘gordo’. Isso porque só terá contribuições, ainda mais se o tempo de contribuição e idade aumentar. O outro será mais ‘magro’ porque terá que pagar as aposentadorias de quem já é inativo e daqueles que se aposentarão. Alguns consultores afirmam que um dos pontos críticos é a gestão do dinheiro, não está claro quem fará isso. Outro risco é que esse dinheiro seja investido na especulação financeira. É um assunto que precisa ser debatido.

Notisul – Outro assunto polêmico nas escolas é o cumprimento das horas/atividades. Qual a dificuldade?
Quinha
– Nós conversamos na diretoria e resolvemos fazer um documento para apontar quais as principais dificuldades das escolas da região para cumprir a lei. Tem escolas que não têm computador, ou são poucos para o número de professores, ou não tem sala adequadas, isso porque a sala dos professores nem sempre é o melhor local, devido ao movimento de pessoas e o espaço físico. A hora/atividade é uma luta do sindicato. Antes, o professor tinha 14 horas de aula e só ganhava por isso. Com a determinação, o professor passa a ganhar por dez, 20, 30 ou 40 horas. O que ele não cumpre na sala tem que cumprir na escola, preparando provas, aulas. Mas tem que ter condições, e isso também está estabelecido na lei.

Notisul – O Sinte luta pela incorporação do abono de R$ 100,00, o repasse da inflação – que dá em torno de 6% a 7% – e a extensão da verba indenizatória de R$ 200,00 para toda a categoria. O indicativo de Tubarão é pela greve. É só através de uma mobilização desta que o governo poderá ceder e atender às reivindicações dos professores?
Quinha
– Eu vejo que sim. Porque já foi tentado de tudo. O Sinte sentou para conversar várias vezes em audiência com o governo e eles estão inflexíveis. Eles simplesmente dizem que não têm dinheiro, desengavetam a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas nós sabemos que a arrecadação estadual só cresce, então, há condições de pagar o reajuste, sim. A assembléia regional foi bastante representativa. Os professores colocaram que os colegas não estão contentes, estão receosos de fazer a greve, mas nenhum deles disse que não faria. Aliás, em Tubarão, nos primeiros dias, a adesão não é grande. A greve é um processo a ser construído. Nós vamos levar o indicativo de greve a outras regionais também. Isso demonstra que o professor não está satisfeito. Vamos lotar a assembléia estadual e mostrar ao secretário (de educação) Paulo Bauer e ao governador Luiz Henrique (da Silveira) que não estamos contentes. Queremos aumento de salário!

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