quinta-feira, 14 maio , 2026

Enem 2024: ‘espelhos’ da redação são divulgados

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou nesta sexta-feira (14) os “espelhos” da redação do Enem 2024, permitindo que os candidatos consultem a versão digitalizada dos textos entregues na prova. Apenas 12 participantes obtiveram a nota máxima nesta edição, o menor número registrado nos últimos 10 anos.

Os estudantes podem acessar a versão digitalizada de suas redações na Página do Participante. O espelho permite que os candidatos verifiquem como foram avaliados em cada uma das cinco competências exigidas pelo exame. O tema da redação variou conforme a edição da prova. Na aplicação regular, os participantes escreveram sobre “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”. Já na reaplicação e na prova para pessoas privadas de liberdade (PPL), o tema abordado foi “Desafios para a valorização da arte de periferia no cenário cultural brasileiro”.

Entre os poucos candidatos que alcançaram a pontuação máxima, está Danilo Oliveira Batista, de São Luís (MA). Seu texto destacou a relação entre políticas públicas ineficazes, falhas educacionais e a valorização da herança africana no Brasil, com embasamento sociológico e filosófico. A disponibilização dos espelhos é uma oportunidade para que os estudantes compreendam melhor os critérios de avaliação e possam se preparar para futuras edições do exame.

Confira:

O “ciclo do ouro” – ocorrido no Brasil no século XVIII – acarretou o aumento do número de escravos provenientes do continente africano no país, trazidos com graves diferenças culturais entre si, sem que fossem levados em consideração os aspectos regionais e sociais de suas origens, ocasionando uma homogeneização forçada de indivíduos. Atualmente, de forma análoga à História Colonial Brasileira, ainda há uma forte tendência à padronização cultural da África, desprezando sua pluralidade e seu legado. Assim, dois grandes desafios para a valorização da herança africana no Brasil devem ser debelados: as políticas públicas ineficazes e as falhas educacionais.

Diante do cenário exposto, as políticas públicas ineficazes possibilitam a desvalorização do legado africano no país, uma vez que elas impedem o estabelecimento concreto de uma revisão histórica pautada em mais oportunidades, proteção e visibilidade para pessoas pretas. Consoante o sociólogo Émile Durkheim, uma sociedade sem regras claras, sem valores e sem limites encontra-se em estado de anomia social. Nesse sentido sociológico, esse estado anômico pode ser observado na hodierna realidade brasileira, na medida em que as políticas públicas ineficientes permitem o desprezo e o desrespeito com as religiões de matriz africana, a desassistência em áreas quilombolas e a ausência de representatividade em propagandas, por exemplo. Com base nisso, uma mudança urgente e pragmática deve ser realizada, visando à transformação dessa conjuntura, de modo a não só valorizar a herança africana no país, como também a protegê-la.

Ademais, as falhas educacionais também constituem-se como importantes fatores que aprofundam o descaso com o legado africano no Brasil. Segundo o filósofo Inmanuel Kant, “o homem é aquilo que a educação faz dele”. Sob esse prisma filosófico, essas falhas educacionais solidificam mentalidades alienadas na população, potencializando preconceitos e ratificando equívocos concernentes à cultura africana no país. Nesse viés, a própria formação do cidadão brasileiro – no que tange à África e sua herança – é maculada por noções desprovidas de veracidade e etnocêntricas, corroborando a desvalorização da pluralidade e das “raízes africanas”, presentes em campos variados, como a gastronomia, a dança e a religião, representados respectivamente, pelo acarajé, pelo tambor de crioula e pelo candomblé. Então, torna-se imperiosa a correção imediata dessas falhas, no sentido de debelar erros e ampliar visões africanas positivas.

Infere-se, portanto, que as políticas públicas ineficazes e as falhas educacionais configuram-se como os dois desafios para a valorização da herança africana no Brasil. Nessa ótica, o Governo Federal – órgão máximo responsável pela ordem social – deve ampliar as políticas públicas existentes, tornando-as mais eficazes, por intermédio de uma aliança com o Governo Estadual e o Governo Municipal, com a finalidade de aumentar a proteção, as oportunidades e a representatividade das pessoas pretas. O Governo Federal também deve corrigir as falhas educacionais, por meio da Mídia — grande divulgadora de informações — e da Escola, a fim de mitigar equívocos, ocasionando a valorização do legado africano. Logo, o país possuíra uma estrutura melhor para “dialogar” com a herança da África, longe da padronização impositiva ocorrida durante o “ciclo do ouro” no século XVIII.

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