Viajar e dançar são duas coisas que me dão uma felicidade imensa. Viajar, sobretudo, é a nossa oportunidade de quebrar a rotina, reduzir o estresse e ampliar a felicidade — tanto no planejamento quanto nas memórias que criamos depois.
Viajar é movimento interno e externo: promove autoconhecimento e oferece uma nova dinâmica ao corpo e ao cérebro.
Neste fim de semana, percebi a minha própria evolução. Vi o quanto a minha autoafirmação foi essencial para que eu pegasse o metrô sozinha, memorizasse as estações usando uma técnica aprendida há vinte anos e, ainda, trocasse de meio de transporte até chegar ao destino final. Eu respirava vagarosamente e tremia, tentando me controlar, pois depois do metrô, precisa caminhar e encontrar o local da minha reunião. Pequenas conquistas que, no fundo, são gigantes.
Viajar também nos coloca diante da cultura do outro. E, mesmo sem querer, começam as comparações. Algumas comparações doem; outras aquecem o coração.
Ontem, no metrô, em dia de jogo do Bayern de Munique, era um mar de gente. E ali me surpreendi com detalhes que dizem muito. A maioria das pessoas usa o celular com GPS ligado — são muitos turistas, e a cidade se torna ainda mais cosmopolita nos fins de semana. Munique está entre as cidades mais seguras da Alemanha, e isso se sente no ar: não há o medo constante de ser roubado. Celulares e documentos perdidos costumam ser devolvidos. As pessoas andam tranquilas — inclusive eu.
Também não existe empurra-empurra. Quem vai entrar espera quem vai sair. Simples assim. Duas vezes me ofereceram lugar por causa dos meus cabelos brancos — gesto que carrega respeito sem palavras. Os transportes funcionam com uma precisão inacreditável para nossos padrões: horários cumpridos, conexões integradas, tudo fluindo.
Para quem viveu anos ao lado de um colégio, com o barulho incessante das motos fazendo aquele “ra-ta-ta-tá”, o silêncio daqui impressiona. As motos praticamente não existem. Bicicletas, sim — para o trabalho, para o lazer, para a vida. Crianças começam cedo, com suas bicicletas de equilíbrio. Nos parques, famílias pedalam juntas. Pais e mães carregam seus filhos em estruturas acopladas às bicicletas, como se o cuidado também estivesse em movimento.
Eu paro para olhar, pois é uma cena que me emociona, especialmente por pensar que em breve, minha neta também será transportada desta forma. Pedestres e ciclistas têm prioridade — e os carros respeitam. Ninguém buzina. Ninguém se exalta.
Mas há algo que ainda me causa estranhamento — quase uma agonia se é que vocês me entendem.
No primeiro dia, acostumada ao nosso trânsito, coloquei o pé na avenida para atravessar e fui “freada” pelo olhar de quem aguardava.
Aqui, ninguém atravessa fora da faixa ou antes do sinal abrir — mesmo que não venha carro algum da direita ou da esquerda. Ninguém, ninguém infringe a regra. Hoje, eu espero também. Espero e atravesso sorrindo, imaginando o quanto isso transformaria o nosso país, onde, no trânsito, muitas vezes impera o “salve-se quem puder”.
Sigo aprendendo, dentro das minhas limitações. Aqui, é comum encontrar pessoas que falam três ou mais idiomas. E eu sinto — sem culpa, mas com consciência — o quanto perdi ao abandonar o inglês. Ainda assim, não me cobro a ponto de me paralisar. Ontem, numa contação de histórias, vi crianças brasileiras que já são plurilíngues. Fiquei admirada.
Eu sigo no básico: no tradutor, na mímica, no esforço. Porque há algo que não posso permitir — deixar de viver tudo o que esse mundo de possibilidades está me oferecendo.
No fim, viajar não nos transforma em alguém novo — mas nos devolve, com mais coragem, a quem sempre fomos.
Nos vemos nas próximas linhas!

