“Santa Catarina perde R$ 400 milhões por ano na saúde por falta de quem brigue em Brasília”
Eleito com 93.005 votos, distribuídos por 291 municípios, Zé Milton Scheffer (PP) deixa a Assembleia Legislativa depois de quatro mandatos para ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Ex-prefeito de Sombrio e extensionista rural da Epagri, ele devolve ao Progressistas uma vaga na bancada federal catarinense que o partido não conquistou em 2022. Nesta entrevista ao Pelo Estado, analisa o resultado, explica por que saúde e agricultura encabeçam sua agenda em Brasília, defende uma reforma do Judiciário antes de qualquer debate sobre impeachment de ministros e comenta a indicação para presidir o PP em Santa Catarina.
Pelo Estado – Como o senhor avalia o resultado desta primeira disputa para a Câmara dos Deputados?
Zé Milton – Foi uma vitória construída por muita gente. Eu disse no dia da apuração, lá em Sombrio, e repito: essa vitória não é do Zé Milton, é das pessoas que caminharam comigo. Tivemos votos em 291 municípios, o que mostra que o trabalho de 16 anos na Assembleia chegou a quase todo o estado.
Foi também uma campanha feita em parceria. Do recurso que recebemos do partido, quase metade foi repassada para os candidatos a deputado estadual. Isso mostra que dá para fazer campanha com os pés no chão, andando e conversando com as pessoas.
Pelo Estado – O PL teve uma votação muito expressiva em Santa Catarina, e o próprio senador Esperidião Amin não conseguiu se reeleger. Como o senhor leu o comportamento do eleitor?
Zé Milton – O eleitor catarinense deixou claro o que pensa do momento do Brasil. Isso precisa ser respeitado. O Progressistas volta a ter um representante na Câmara, o que não aconteceu em 2022. Agora é hora de reorganizar o partido e ouvir as bases.
Sobre o senador Amin, tenho muita gratidão. Caminhamos juntos a campanha inteira, e Santa Catarina deve muito a ele. O resultado não apaga a história de quem dedicou a vida ao estado.
Pelo Estado – A sua votação ficou concentrada no Sul catarinense. Como foi esse desempenho na região?
Zé Milton – Fui o deputado federal mais votado em 18 municípios, quase todos no Sul. Em Araranguá foram 8.975 votos e em Sombrio, 8.826. Também fomos o mais votado em Tubarão, com 2.897 votos, e em Balneário Gaivota, com 2.827. É o reconhecimento de quem conhece o nosso trabalho desde a prefeitura de Sombrio e da época da Amesc, Fecam e como deputado estadual.
Mas eu não sou deputado de uma região só. No Alto Vale, por exemplo, destinamos mais de R$ 58 milhões aos municípios da Amavi neste mandato, e eu ia à região de três a cinco vezes por mês. Em Ituporanga, fiquei em segundo lugar. O Extremo Sul passa a ter voz na Câmara, mas o mandato vai ser de Santa Catarina inteira.
Pelo Estado – A saúde foi uma das suas bandeiras na Assembleia. O que pretende fazer nessa área em Brasília?
Zé Milton – Eu vou trabalhar muito pela liberação de um recurso chamado teto MAC, que é o financiamento da média e alta complexidade. São R$ 400 milhões por ano que Santa Catarina tem direito e, por falta de um deputado que brigasse lá, estamos perdendo isso há mais de cinco anos. É uma bandeira que vou levar, ao lado dos demais colegas que lá estiverem, para trazer esse recurso e melhorar o atendimento dos nossos hospitais.
Hospitais como o Bom Jesus, de Ituporanga, e a unidade de Petrolândia precisam desse apoio. Sou autor de muitas leis na área da saúde, entre elas a Política Hospitalar Catarinense. Já trabalhei ao lado do secretário de Saúde criando o programa de cirurgias eletivas, que diminuiu a fila. Quero levar essa experiência para o Congresso.
Pelo Estado – E na agricultura, quais são as propostas?
Zé Milton – Eu comecei a vida como extensionista da Epagri e, desde o primeiro mandato, fui para o interior debater com os agricultores, ajudar e defender os agricultores. Um dos meus propósitos em Brasília é criar uma política agrícola de verdade. Está na hora de trabalhar políticas públicas que tornem a produção mais estável, mais previsível para o agricultor.
Também vou apresentar um projeto de lei proibindo a entrada de produto de outros países quando o nosso produto estiver com o preço abaixo do custo de produção. Isso vale para o Mercosul também. Nós não podemos estar protegendo o produtor de outros países em detrimento da renda da família dos nossos agricultores. O arroz do Sul catarinense é um exemplo claro do que acontece quando o produtor fica sem proteção.
Pelo Estado – Infraestrutura também está na pauta?
Zé Milton – Sim. A outra frente é a infraestrutura e a logística, onde entra a BR-470, e eu vou trabalhar muito nisso. No Sul, vamos acompanhar de perto as obras federais que interessam à região.
Vamos cobrar também os projetos estaduais. A gente é parceiro do governador do estado, mas também vou cobrar dele ações de melhoria nas rodovias estaduais do Alto Vale. Parceria não significa ficar calado.
Pelo Estado – Há uma pressão crescente pelo impeachment de ministros do STF. Qual será a sua posição na Câmara?
Zé Milton – Antes de falar em impeachment, precisamos de uma reforma, que passe desde o Poder Legislativo. O Poder Judiciário é o poder mais importante que tem num país. Ele precisa funcionar igual a um relógio, com muita lisura e muita credibilidade. Tem que ter uma reforma, mudar a composição e mudar também o papel do STF, que tem que fazer só o papel dele, com cada poder trabalhando de maneira independente.
Se precisar afastar um ministro, e as provas forem justas, deve ser afastado. Mas isso é uma questão pontual. A reforma do Judiciário é uma necessidade para o futuro do nosso país, para tornar a Justiça mais ágil e mais previsível. Também temos que reduzir o tamanho da máquina pública. Eu vou com esse pensamento para Brasília.
Pelo Estado – O senador Esperidião Amin defendeu o seu nome para presidir o Progressistas em Santa Catarina. O senhor aceita a missão?
Zé Milton – Recebo a indicação com muita responsabilidade e agradeço ao senador Amin pela confiança. A decisão cabe à convenção, e vou respeitar o tempo do partido. O que posso dizer é que, se for esse o caminho, quero um Progressistas mais próximo dos municípios, dos prefeitos e vereadores, que foram a base da nossa eleição.
O partido precisa se renovar sem perder sua história. Temos uma bancada na Assembleia, voltamos para a Câmara e seguimos parceiros do governador Jorginho Mello. É com esse diálogo que vamos preparar o Progressistas para 2028.
