FOTOS: PMG Divulgação Notisul
Antes mesmo do sol surgir no horizonte, o mar já anuncia: Nossa Senhora dos Navegantes está chegando. Para as religiões de matriz africana, ela é Iemanjá, a Rainha do Mar. No dia 2 de fevereiro, o litoral brasileiro se transforma em cenário de fé, tradição e devoção. Em Garopaba, esse rito acontece desde 1921, mantendo viva uma herança que nasceu entre pescadores e atravessa gerações.
A procissão, realizada por terra e mar, tem como ponto central o Centro Histórico, no entorno do Morro Alto, onde está a centenária Igreja São Joaquim, construída em 1795 e reformada em 1846. É dali que partem os fiéis, carregando nos ombros duas imagens: São Joaquim, padroeiro do município, e Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos homens e mulheres do mar.
Memórias vivas da cidade
“Nós íamos caminhando, cantando e rezando”, recorda Vanda Lobo, aos 95 anos, considerada uma das guardiãs da memória de Garopaba. Segundo ela, há décadas a procissão segue o mesmo trajeto, reunindo famílias inteiras em um ritual de respeito e devoção.
O pescador Linauro Domingos, o Lindo, lembra que, nos anos 1970, a ocasião exigia traje social. “O pessoal vinha da Gamboa, do Siriú e do Macacu a pé, com o sapato na mão para não gastar o solado. Muitos tomavam banho de balde antes da procissão”, conta. Em uma fotografia de 1969, ele aparece ao lado dos irmãos, todos vestidos para a celebração.
O caminho da fé: da terra ao mar
A programação religiosa é marcada por três procissões. As duas primeiras acontecem por terra. Na sexta-feira, ao entardecer, a imagem da santa sai de um rancho de pescador, na Praia Central, até a Igreja São Joaquim. No domingo, os fiéis caminham até a Praia da Vigia, onde ocorre o momento mais aguardado.
É ali que Nossa Senhora dos Navegantes deixa a terra firme e segue para o mar, conduzida por embarcação enfeitada com flores, orações e promessas. São Joaquim permanece em terra, à espera. A travessia marítima dura cerca de 1h30, passando pelo Ilhote da Praia do Siriú, até o retorno à baía da Enseada de Barcos.
Quando a imagem retorna à praia, o reencontro emociona. Aplausos, lágrimas e silêncio reverente marcam o instante em que as duas devoções se encontram novamente.
Promessas, milagres e gratidão
Há 36 anos, Marília Dias participa da procissão. A devoção nasceu de uma promessa feita pela vida do filho Diego, vítima de um grave acidente na infância. Após um ano internado e 29 cirurgias, ele sobreviveu. “Foi a fé que me sustentou”, afirma.
A história de Marília também carrega a herança familiar. Ainda bebê, ela foi curada de uma doença grave após uma promessa feita pela avó. “Sempre me ensinaram que eu tinha duas mães: a que me concebeu e Nossa Senhora dos Navegantes”, conta.
Hoje, a experiência da procissão marítima em Garopaba tem um significado especial. “No barco, é como se estivéssemos mais próximos dela, do lar da santinha, o oceano”, resume.
Corrida de Canoas: tradição que também é celebração

Além da fé, a festa preserva manifestações culturais ligadas à pesca. A Corrida de Canoas de um pau só é uma das atrações mais aguardadas. Cada embarcação percorre cerca de 1.700 metros no mar, e a prova termina na areia, com o chumbereiro correndo para tocar o sino.
Cerca de 120 pescadores participam da disputa, representando comunidades de diferentes pontos do município. As canoas carregam nomes próprios e histórias que remontam à chegada dos açorianos, que adaptaram as embarcações indígenas para enfrentar o mar aberto.
Entre tempos: a memória registrada em imagens
Parte da identidade visual da festa foi eternizada pelo fotógrafo Manfredo Hübner (in memoriam), que documentou a vida urbana, rural e religiosa de Garopaba ao longo de décadas. Para a filha, Suzana Hübner, presidente da Associação Empresarial de Garopaba (ACIG), as imagens revelam mais do que momentos. “Mostram o modo de viver, a relação com o mar e com a fé.”
Suzana reforça a importância de preservar o caráter solene da procissão. “Não é um ato instagramável. É um ato de fé e cultura que precisa ser respeitado.”
Festa e liberdade religiosa
A programação da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes iniciou na sexta-feira (30) e segue até segunda-feira (2), com missas, procissões e apresentações culturais, todas gratuitas.
Garopaba também se destaca pela liberdade religiosa. No mesmo dia 2 de fevereiro, acontece a 6ª Festa de Iemanjá, organizada pelo Reino de Xangô da Pedra Preta. Com oferendas, cantos e atabaques, a Rainha do Mar também é reverenciada pelas águas, reafirmando o caráter multicultural da cidade.
Diante do oceano que banha Garopaba, a fé assume nomes diferentes, mas encontra o mesmo espaço de respeito, memória e devoção.