quarta-feira, 18 março , 2026

Fé que atravessa gerações: Garopaba celebra Nossa Senhora dos Navegantes há mais de um século

FOTOS: PMG Divulgação Notisul

Antes mesmo do sol surgir no horizonte, o mar já anuncia: Nossa Senhora dos Navegantes está chegando. Para as religiões de matriz africana, ela é Iemanjá, a Rainha do Mar. No dia 2 de fevereiro, o litoral brasileiro se transforma em cenário de fé, tradição e devoção. Em Garopaba, esse rito acontece desde 1921, mantendo viva uma herança que nasceu entre pescadores e atravessa gerações.

A procissão, realizada por terra e mar, tem como ponto central o Centro Histórico, no entorno do Morro Alto, onde está a centenária Igreja São Joaquim, construída em 1795 e reformada em 1846. É dali que partem os fiéis, carregando nos ombros duas imagens: São Joaquim, padroeiro do município, e Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos homens e mulheres do mar.

Memórias vivas da cidade

“Nós íamos caminhando, cantando e rezando”, recorda Vanda Lobo, aos 95 anos, considerada uma das guardiãs da memória de Garopaba. Segundo ela, há décadas a procissão segue o mesmo trajeto, reunindo famílias inteiras em um ritual de respeito e devoção.

O pescador Linauro Domingos, o Lindo, lembra que, nos anos 1970, a ocasião exigia traje social. “O pessoal vinha da Gamboa, do Siriú e do Macacu a pé, com o sapato na mão para não gastar o solado. Muitos tomavam banho de balde antes da procissão”, conta. Em uma fotografia de 1969, ele aparece ao lado dos irmãos, todos vestidos para a celebração.

O caminho da fé: da terra ao mar

A programação religiosa é marcada por três procissões. As duas primeiras acontecem por terra. Na sexta-feira, ao entardecer, a imagem da santa sai de um rancho de pescador, na Praia Central, até a Igreja São Joaquim. No domingo, os fiéis caminham até a Praia da Vigia, onde ocorre o momento mais aguardado.

É ali que Nossa Senhora dos Navegantes deixa a terra firme e segue para o mar, conduzida por embarcação enfeitada com flores, orações e promessas. São Joaquim permanece em terra, à espera. A travessia marítima dura cerca de 1h30, passando pelo Ilhote da Praia do Siriú, até o retorno à baía da Enseada de Barcos.

Quando a imagem retorna à praia, o reencontro emociona. Aplausos, lágrimas e silêncio reverente marcam o instante em que as duas devoções se encontram novamente.

Promessas, milagres e gratidão

Há 36 anos, Marília Dias participa da procissão. A devoção nasceu de uma promessa feita pela vida do filho Diego, vítima de um grave acidente na infância. Após um ano internado e 29 cirurgias, ele sobreviveu. “Foi a fé que me sustentou”, afirma.

A história de Marília também carrega a herança familiar. Ainda bebê, ela foi curada de uma doença grave após uma promessa feita pela avó. “Sempre me ensinaram que eu tinha duas mães: a que me concebeu e Nossa Senhora dos Navegantes”, conta.

Hoje, a experiência da procissão marítima em Garopaba tem um significado especial. “No barco, é como se estivéssemos mais próximos dela, do lar da santinha, o oceano”, resume.

Corrida de Canoas: tradição que também é celebração

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Garopaba
FOTO Alan Pedro/Prefeitura de Garopaba Divulgação Notisul

Além da fé, a festa preserva manifestações culturais ligadas à pesca. A Corrida de Canoas de um pau só é uma das atrações mais aguardadas. Cada embarcação percorre cerca de 1.700 metros no mar, e a prova termina na areia, com o chumbereiro correndo para tocar o sino.

Cerca de 120 pescadores participam da disputa, representando comunidades de diferentes pontos do município. As canoas carregam nomes próprios e histórias que remontam à chegada dos açorianos, que adaptaram as embarcações indígenas para enfrentar o mar aberto.

Entre tempos: a memória registrada em imagens

Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Garopaba
Garopaba, em 1968, fotografada por Manfredo Hübner Reprodução Notisul

Parte da identidade visual da festa foi eternizada pelo fotógrafo Manfredo Hübner (in memoriam), que documentou a vida urbana, rural e religiosa de Garopaba ao longo de décadas. Para a filha, Suzana Hübner, presidente da Associação Empresarial de Garopaba (ACIG), as imagens revelam mais do que momentos. “Mostram o modo de viver, a relação com o mar e com a fé.”

Suzana reforça a importância de preservar o caráter solene da procissão. “Não é um ato instagramável. É um ato de fé e cultura que precisa ser respeitado.”

Festa e liberdade religiosa

A programação da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes iniciou na sexta-feira (30) e segue até segunda-feira (2), com missas, procissões e apresentações culturais, todas gratuitas.

Garopaba também se destaca pela liberdade religiosa. No mesmo dia 2 de fevereiro, acontece a 6ª Festa de Iemanjá, organizada pelo Reino de Xangô da Pedra Preta. Com oferendas, cantos e atabaques, a Rainha do Mar também é reverenciada pelas águas, reafirmando o caráter multicultural da cidade.

Diante do oceano que banha Garopaba, a fé assume nomes diferentes, mas encontra o mesmo espaço de respeito, memória e devoção.

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