Em artigo nesse espaço datado de 13 de dezembro de 2011, o acadêmico de história Marcel Martins Guarezi discorreu sobre a importância de repensar heróis históricos especialmente, no caso do artigo, a figura de Garibaldi. Como italiano, logicamente estrangeiro, nos vem à lembrança outro aventureiro de fora que passou pelo período imperial deixando a marca de suas façanhas. Foi Thomas Alexander Cochrane ou Lord Cochrane, almirante britânico que aqui esteve, contratado por D. Pedro 1º (boas informações no livro 1822 de Laurentino Gomes). Estas duas figuras históricas da nação estiveram em polos opostos. Garibaldi queria fazer uma república particular e Cochrane foi contratado para assegurar a unidade nacional após a independência. Segundo a história, a fama do escocês de navegador guerreiro (encarou Napoleão Bonaparte no Mediterrâneo) levou D. Pedro 1º a contratá-lo para o comando da Armada Imperial Brasileira (Marinha de Guerra). Isto depois de algumas ações inescrupulosas do mesmo no parlamento inglês e uma brilhante passagem pelo Chile, onde auxiliou Bernardo O´Higgins na independência daquele país. Lá, a tomada das embarcações espanholas e do porto de Valdivia foi cinematográfica.
Enquanto Garibaldi tem aura de um romântico, Cochrane era um mercenário carimbado que tinha interesse unicamente em dinheiro. Só veio atender ao pedido do nosso imperador quando o mesmo lhe garantiu presas de guerra das naus apreendidas ou mesmo saques de cidades tomadas. E aqui vem a sua importância na manutenção da unidade nacional após D. Pedro 1º romper com as cortes portuguesas. Com o seu destemor e suspeitabilidade ética, foram fulminados os revoltosos do Pará, Maranhão, Bahia e Pernambuco (bem estruturados com a Confederação do Equador).
É nesse ponto que vilão e herói se sobrepõem. Sua participação foi decisiva para que o Brasil não se visse transformado em uma sucessão de repúblicas, como aconteceu com a América Latina espanhola. Somos a quinta economia do planeta porque nosso território é amplo e, como consequência, o setor primário – responsável por esta colocação – é forte e deverá ser imbatível no futuro.
Voltando ao romantismo de Garibaldi e comparando com o corsário escocês vemos que o segundo tem mais bagagem aventureira. Do que se sabe, Garibaldi era mau navegador, pois encalhou o batelão Rio Pardo nas areias da Praia do Campo Bom, em Jaguaruna. Teria sobrevivido nadando até a costa, o que é pouco provável, pois o encalhe desse tipo de batelão já acontece com água pelo joelho. Quando muito, molhou parte da roupa. Na famosa Tomada de Laguna, teve que recuar levando a mulher de um humilde sapateiro, procedimento inimaginável de Cochrane.
Como pode ser visto, o estudante Marcel tem razão.

