quarta-feira, 14 outubro , 2026

Governador sanciona lei que proíbe cotas raciais em universidades de Santa Catarina

FOTOS Divulgação Notisul

Tempo de leitura: 6 minutos

O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), sancionou, na tarde desta quinta-feira (22), a lei estadual que proíbe a adoção de políticas de cotas raciais em universidades públicas do Estado e também em instituições de ensino superior que recebam recursos do governo estadual. A medida inclui as universidades do Sistema Acafe. A sanção provocou reação imediata do governo federal, que classificou a medida como inconstitucional e um retrocesso de direitos.

O Ministério da Igualdade Racial divulgou nota oficial afirmando que a nova legislação colide com normas constitucionais e com políticas de promoção da igualdade consolidadas no país. A pasta informou ainda que acionou a Ordem dos Advogados do Brasil para avaliar medidas jurídicas cabíveis visando ao “restabelecimento da ordem democrática e das garantias constitucionais da população do estado e do Brasil”.

Governo federal fala em retrocesso e inconstitucionalidade

Ao se posicionar contra a lei, o Ministério da Igualdade Racial afirmou que a proibição das cotas raciais representa um retrocesso em políticas públicas consideradas estruturantes no combate às desigualdades históricas no Brasil.

“As cotas raciais e as ações afirmativas são a maior política reparatória do Brasil, ações que nas últimas décadas têm transformado a vida de milhares de famílias, com dados comprovados por pesquisas científicas”, afirmou a pasta.

Segundo o ministério, tentativas de revogar direitos já conquistados serão enfrentadas institucionalmente. A ministra Anielle Franco informou que tratou do tema diretamente com o presidente nacional da OAB, Beto Simonetti.

O que prevê a lei sancionada

A norma tem origem no Projeto de Lei nº 753/2025, de autoria do deputado estadual Alex Brasil (PL). O texto foi aprovado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina com apenas sete votos contrários e, agora, sancionado pelo governador Jorginho Mello (PL).Governador sanciona lei que proíbe cotas raciais em universidades de SC

A lei veda, em todo o território catarinense, a adoção de:

  • políticas de reserva de vagas por critério racial;

  • ações afirmativas semelhantes, como vagas suplementares;

  • critérios raciais para ingresso de estudantes;

  • critérios raciais para contratação de docentes, técnicos ou outros profissionais.

A proibição se aplica tanto a universidades públicas estaduais quanto a instituições privadas que recebam verbas públicas.

A legislação não atinge:

  • a reserva de vagas para Pessoas com Deficiência (PCD);

  • cotas baseadas em critérios socioeconômicos;

  • vagas destinadas a estudantes oriundos de escolas públicas estaduais.

Em caso de descumprimento, a lei prevê multa administrativa de R$ 100 mil por edital publicado, além da possibilidade de corte de repasses de recursos públicos.

Governo de SC defende meritocracia

Em nota oficial, o Governo de Santa Catarina afirmou que a decisão de sancionar o projeto levou em conta diferentes fatores, entre eles a defesa da meritocracia e o respeito à decisão do Legislativo estadual.

Segundo o governo, a nova lei busca garantir “uma concorrência mais justa no acesso às universidades” e ampliar o acesso de candidatos em situação de vulnerabilidade econômica, sem a adoção de critérios raciais.

Udesc aponta violação da autonomia universitária

A sanção da lei também gerou forte reação dentro do próprio Estado. A Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) divulgou nota oficial na qual afirma que a medida representa um retrocesso inconstitucional e interfere diretamente na autonomia universitária, garantida pela Constituição Federal.

Segundo a instituição, a lei impõe restrições genéricas à formulação de políticas acadêmicas e institucionais, comprometendo a liberdade da universidade para definir critérios de acesso, inclusão e permanência estudantil.

A Udesc destacou ainda que experiências consolidadas no Estado e no país demonstram que as políticas de cotas ampliam o acesso ao ensino superior sem prejuízo à qualidade acadêmica, além de promoverem diversidade e retorno social do investimento público.

Impacto em outras instituições

Além da Udesc, a lei deve atingir universidades do sistema Acafe, que recebem bolsas do programa Universidade Gratuita, e faculdades privadas beneficiadas por recursos do Fumdesc, já que também utilizam verbas públicas estaduais.

OAB/SC analisa medidas jurídicas

A OAB Santa Catarina informou que encaminhou a nova legislação para análise técnico-jurídica de suas comissões temáticas. A entidade também deve colaborar com o Ministério Público de Santa Catarina e submeter o tema ao seu Conselho Estadual em sessão prevista para o próximo mês.

Segundo a OAB/SC, estão sendo avaliados os aspectos constitucionais da lei e eventuais medidas a serem adotadas. A OAB Nacional foi procurada por veículos de imprensa, mas não havia se manifestado até a publicação.

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