terça-feira, 17 fevereiro , 2026

História de amor: idoso atropelado em SC tinha escrito carta para esposa falecida

Seu Ari da Cunha, 72 anos, sabia de cór até os segundos vividos ao lado de sua grande paixão, Marlete: 52 anos, 7 meses e uma semana. A esposa, falecida em janeiro, continuava presente na memória e no coração do idoso que, na tarde da última segunda-feira (6), se dirigiu à Câmara de Vereadores de Joinville para, entre outras reivindicações, imprimir a história do casal e uma carta direcionada ao amor de sua vida.

Na volta para casa, no entanto, seu Ari, que estava de bicicleta, foi atingido por um carro desgovernado e morreu no local do acidente. Na carta de poucas linhas, Ari narra a dor que carrega pela falta da esposa que, por mais de 10 anos, lutou contra depressão.

Ele também destaca “a riqueza de amor” que cultivava em sua relação de mais de cinco décadas. Nos últimos 11 meses longe de Marlete, seu Ari se sentia pobre. Confira o texto na íntegra:

“Marlete,

Quando eu tinha você ao meu lado, me sentia mais forte. Hoje, me sinto muito fraco e sozinho, pois olho por todos os cômodos da casa e vejo tudo muito vazio sem a sua presença. Como eu sinto sua falta, meu coração sofre com a saudade. Sem você tem sido muito difícil viver e será assim até o fim da minha vida.

Não penso em mais nada além de você. Quando eu precisei de ti, sempre esteve presente ao meu lado e quando você precisou de mim, eu também estava. Estive ao lado da cabeceira da nossa cama procurando te acalmar muitas vezes, pois a dor que você sentia também doía em mim, pois juntos, formávamos um só corpo. Muitas lágrimas derramei por você nestes tempos difíceis.

Começamos nossa vida conjugal sem nada, mas, com a sua ajuda, conseguimos conquistar muitas vitórias e eu sentia que tínhamos muita riqueza de amor. Hoje, me sinto muito pobre. Você foi minha protetora, acolhedora, ajudadora e a segunda mãe. Permanecemos juntos por 52 anos, 7 meses e 1 semana que é igual 640 meses, 19.213 dias, 461.112 horas, 27.666.720 minutos ou 1.660.003.200 segundos. Aqui, nossas mãos se encontram para construir uma história.”

A rua Petrópolis

Natural de José Boiteux, seu Ari foi ainda criança morar com a família em Guaramirim e, na juventude, vendeu um porco da criação e resolveu se aventurar sozinho em Joinville. Desde então, sempre se locomoveu com bicicleta e, da zona Sul da cidade, ia até à fundição Tupy para trabalhar.

E foi na rua Petrópolis, justamente onde ocorreu a fatalidade que tirou sua vida, que Ari conheceu a esposa Marlete, na década de 1960. Em menos de um ano, o casal noivou e casou. E, por 51 anos, 2 meses e 13 dias, até o falecimento de Marlete, a rua Petrópolis também foi o palco desta grande história de amor relatada por Ari.

“No dia 21 de junho de 1968 uma rosa sem espinho nasceu no fundo do meu coração, onde permaneceu até a data de 29 de janeiro de 2021, quando, com muito pesar, veio a falecer, aos 74 anos de idade. Nos deixando a saudade, mas também o prazer e o privilégio de termos convivido com esse exemplo de ser humano, de mulher, de mãe e de avó. No meu coração será sempre como se você não tivesse partido, pois não há dor maior do que nos despedir do nosso próprio coração. Da morte só espero que se traga paz e o reencontro com as pessoas amadas que já se foram. Quem parte para o descanso eterno, deixa lágrimas de saudades e lembranças imortais”, finalizou Ari em seu texto.

 

Líder comunitário, pai e avô

O aposentado, que também era líder comunitário, dedicou sua vida ao bem comum. Inclusive, na tarde de segunda-feira, visitou gabinete por gabinete para pedir melhorias à comunidade. Ari morava no coração do bairro Petrópolis, próximo à Escola Municipal Doutor Abdon Baptista, tinha uma filha e três netos.

Sem carteira de motorista, ele rodava pela cidade de bicicleta ou de ônibus para pedir segurança no trânsito, nas ruas ou qualquer demanda que chegasse até ele. Além da Tupy, atuou também na Schulz, em um posto de gasolina e até na prefeitura de Joinville, onde se aposentou, em 1996. Neste período, chegou, inclusive, a ser presidente do Conselho de Segurança (Conseg) da região onde morava e foi ali que passou a ter mais contato com os parlamentares da cidade.

Levi Rioschi, seu amigo pessoal e ex-vereador de Joinville, conta que seu Ari era um exímio frequentador de seu gabinete e andava com o livro do Estatuto do Idoso e a Constituição Federal sempre debaixo do braço. “Nos conhecemos desde os 15 anos. Ele abria mão de muitas coisas pelo bem comum. Um exemplo de cidadão. Viveu pela comunidade até nos últimos dias de sua vida. Estou muito abalado”, conta Rioschi.

 

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Com informações NSCTotal

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