Esmolambado, olhos fundos, barba cerrada e cabelos revoltos. Com vestes e sapatos brancos, contudo, maltrapilho e encardido, denunciava o tempo em que zanzava pelas ruas da cidade. Costumeiramente, perturbava os transeuntes com frases repetitivas a respeito da morte. O que lhe fez merecedor da alcunha, ‘Muerte’.
– Hoje vai morrer gente, hoje vai morrer gente! Esbravejava aos quatro ventos em frente ao mercado público municipal, olhando diretamente nos olhos daqueles que transitavam por ali. Alguns desavisados entendiam os devaneios do Senhor ‘Muerte’ como ultraje pessoal.
– Oh rapaz, tu ‘tá’ me ameaçando de morte? – Perguntou um jovem. Ofendido com as palavras do maluco. Com tamanha loucura exposta em público sem nenhum embaraço ou pudor, logo os eventuais ressentidos percebiam que se tratava de um caso psiquiátrico, não de uma afronta pessoal.
Assim, os meses se passaram, ‘Muerte’ dormia em qualquer canto da cidade e se alimentava das sobras da feira do mercado público. Depois de muitos apelos dos cidadãos no programa “Boca no Trombone”, da rádio local, dando conta que um maluco estava perturbando o sossego público; segunda-feira cedinho, a assistente social do município foi ao encontro do Senhor ‘Muerte’. Enquanto ela tentava estabelecer um diálogo amistoso, o homem gritava sequencialmente: “hoje vai morrer gente”. Enquanto isso, na quietude dos passos, aproximou-se um senhor franzino.
– Com licença – Disse educadamente o velhinho para a moça. – Esse rapaz é meu filho. Estou procurando ele há sete meses; desde o dia que fugiu do hospital psiquiátrico de minha cidade, a 200 quilômetros daqui. Já tinha perdido as esperanças de encontrá-lo com vida. Mas, graças a Deus, minha tortura chegou ao fim.
– O senhor pode me explicar o que aconteceu com seu filho? Mesmo estando mentalmente desequilibrado consigo identificar nele traços refinados de uma boa educação.
– O nome dele é Alberto. Trabalhou durante vinte anos como médico legista no instituto médico legal regional, sendo o responsável em periciar crimes em várias cidades. No início, ele não se abalou com o trabalho, embora analisar corpos que sofreram morte violenta não seja muito agradável. Contudo, os crimes eram eventuais. Depois dos primeiros anos de profissão, a violência e as mortes cresceram tanto que todos os dias ele atendia ocorrências de homicídios. Não suportou, pirou. Meu filho foi enlouquecido pela violência crescente da sociedade.
A moça ficou estarrecida com aquela história. Balbuciou frases desconexas, até finalmente conseguir formular uma pergunta lógica para o velho:
– Sei que a convivência diária com a violência pode perturbar nossa mente, principalmente para quem tem que analisar os resquícios da morte. O que não entendo é por que ele fica repetindo a frase: “hoje vai morrer gente”? Isso é assustador!
O homem pegou na mão de ‘Muerte’, viraram de costas para a ela e, a passos lentos seguiram, com o velho falando sem olhar para trás:
– Minha querida, esse é o único ponto em que ele apresenta alguma lucidez. Alberto passou tantos anos diários periciando corpos de pessoas assassinadas que não é sintoma de loucura afirmar: “hoje vai morrer gente”. Natural ou brutal, é fato que isso vai acontecer hoje.
E assim, de mãos dadas, os dois foram se afastando, até sumirem em meio à multidão. A assistente social ficou estagnada, introspectiva, mesmo tendo um cérebro afiado como um bisturi foi um insano que lhe fez despertar para a única certeza da vida: a morte.

