Continua a festa macabra pela morte de Bin Laden dentro e fora dos EUA. Voltamos ao tempo do forte apache, velho maniqueísmo político: de um lado estariam os bons, do outro, os maus, os “selvagens”. Os bons usariam terno e gravata, e os maus, turbantes e batas. Autoridades americanas elogiando a tortura como forma vencedora de se obter informações.
E, depois, há quem diga que a Idade Média foi a idade das trevas, como se a nossa fosse idade das luzes. A nossa é a idade da hipocrisia. “Atire a primeira pedra quem…”. Reflexão sempre atual.
É insuportável essa divisão do mundo entre bonzinhos e “terroristas”, como se não existisse terrorismo de estado. Não sou a favor de Bin Laden, sou a favor de Jesus Cristo, de Gandhi, de Chiara Lubich e de Sérgio Vieira de Mello. Mas não suporto mais essa festa macabra, nauseante, que encanta jornalistas americanos, brasileiros. Festa obscena, difícil de ser explicada às crianças.
Com minha esposa e filhas, enquanto recitávamos o terço do Rosário, pensava na abrangência do Pai Nosso: Deus é meu pai, seu pai, pai do Bush e também do Bin Laden. Ao menos um mínimo de pudor moral evitaria tal festejar macabro que anima os dias de um país que se diz cristão.
Na insanidade internacional que caracteriza nosso mundo, há mortos dos dois lados, dos três lados, dos quatro lados. Mortos de terno e gravata e mortos de turbantes e batas. Crianças e adultos, vítimas, dos dois lados.
Por isso, ao menos um pouco de pudor. Obama, em estado de delírio eleitoral, perdeu o pudor. Virou republicano, deve ter nascido no Texas, quem sabe estudou no mesmo colégio do Bush. Negro por fora, cor de uma raça oprimida, branco por dentro, cor de uma raça que oprimiu escravos por séculos, mas, mesmo assim, ainda julga-se “superiora”.
O Rio de Janeiro continua lindo, e o mundo continua na idade das trevas, involução moral cotidiana, capinha de democracia na velha hipocrisia de sempre.
Acho que o bom mesmo seria mudar para um mosteiro, fabricar e vender geleias, longe do mundo, fuga do mundo. Uma fazenda-mosteiro, com fogo de chão, longe do mundo. Ou, então, continuar recitando o terço do Rosário com minha família, rezando por este “mundo velho sem porteira”, tentando trabalhar pelo internacionalismo da paz, da fraternidade, da liberdade com igualdade, usando terno e gravata, turbante e bata, ou bombachas e chapéu de aba larga.

