A s verdadeiras motivações que levaram Charles L. Dodgson a escrever Alice no País das Maravilhas são controversas. A versão oficial dada pelo próprio autor atesta que o enredo se baseia nas incríveis imagens visualizadas em sua viagem pelo rio Tâmisa, contando, de forma improvisada, uma estória para entreter três meninas, uma delas chamada Alice. Já os defensores da psicodélia afirmam que a obra seria a tradução plena de uma alucinação ocasionada por ópio ou haxixe. A releitura feita pelo cineasta Tim Burtton, realçou essa possibilidade. O Chapeleiro Maluco apresenta os típicos sintomas de um usuário, inclusive com a nítida contração das pupilas, efeito muito destacado nas aparições do personagem. Os psicanalistas procuram afirmar, em inúmeras teses sobre o assunto, o profundo caráter pedagógico do livro. Seria um tratado sobre o mergulho profundo no inconsciente humano, seus medos, angústias e incompreensões.
Um clássico. Perpassou gerações e será lembrado por muitas outras. E, como não podia deixar de ser, influenciou outras obras, nas mais diferentes culturas. O Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, apresenta várias semelhanças ao texto. Mas a grandiosidade da narrativa não inspirou somente a literatura e as artes. A política está repleta de figuras, as quais se assemelham em muito a imagem ingênua, incrédula e indefesa de Alice. A mais recente versão dessa metáfora foi protagonizada pela senadora da república pelo Tocantins Kátia Abreu (foto). Em entrevistas concedidas a diversos veículos de comunicação, a ruralista afirma peremptoriamente estar surpresa com o autoritarismo de Gilberto Kassab ao intervir na eleição em Minas Gerais e jogar o PSD nos braços do PT. Diz-se traída, pois acreditava que a nova sigla seria um espaço democrático e transparente, diferente do DEM, de onde abriram dissidência.
O currículo da parlamentar permite, com certa convicção, afirmar que, por não ser adepta ao uso de drogas e muito menos estar inconsciente no ato de suas entrevistas, ela quer contar uma estória da carochinha. Dizer não ser sabedora das intenções do prefeito de São Paulo quanto a criar um partido com o único intuito de dar vazão ao seu projeto político pessoal é ridículo. Kassab assume o verdadeiro papel de Rei de Copas cortando as cabeças daqueles capazes de tornarem-se empecilhos aos planos por ele traçados. Kátia, ao cair na toca do Coelho de Cartola, não vê a hora de livrar-se da situação desprestigiada. E, nesse momento crucial, surge a sábia Lagarta, tão bem representada pelo nosso vice-presidente Michel Temer, abrindo as portas do PMDB à indefesa Kátia, garantindo a ela o que não teve em sua legenda: democracia e transparência. Um verdadeiro conto de fadas. Em breve, veremos a congressista, antes ferrenha defensora da oposição, sentada à mesa com a rainha Branca, digo, presidenta Dilma. Um chá de loucos.
A reforma política mofa nas gavetas de Brasília. Os partidos mais parecem Gatos de Cheshire. Aparecem e somem com facilidade. Ao sabor da conveniência estão contra ou a favor. As coligações formuladas nos municípios são passes de mágica, nos quais a ideologia foi para as calendas. A emblemática foto de Lula ao lado de Maluf cala qualquer resquício de esperança quanto ao embate das forças antagonistas. É como se a Rainha Branca e a de Copas estivessem do mesmo lado e o mundo mágico das maravilhas fadado à devastação total. O eleitor, pobre Lebre de Março, assiste a tudo sem entender quem é quem nesse baralho.

