sexta-feira, 25 setembro , 2026

Leticia Sabatella, alinhamentos ideológicos, presunções, ódios

“Voltando ao Trump…” – “Ele cria muita divisão na sociedade. Acho que ele está promovendo a ideia do ‘nós contra eles’, que era o discurso de Adolf Hitler. Não acho que Trump é um Hitler, mas a mesma ideia existe nos dois discursos.

É isso que assusta. Quando você começa a se referir a outra cultura como ‘eles’, é como se valessem menos. Passam a ser tratados não como pessoas, mas como uma ideologia ruim, o mal” (Entrevista de Evan Jean Lawrence a Isto é 12jun17).

Esse discurso autoritário do mundo acentuadamente ideologizado durante o século 20 alcança o Brasil no século 21, para pouco bem e para muito mal. Se nos posicionamos politicamente, lamentavelmente o fazemos com discursos de ódio.

“Nós precisamos de vocês. Está em jogo tudo o que fizemos. Não somos iguais a eles” (Dilma Rousseff, eleita presidenta, em nov10). A “concepção” demarcatória que Lula recorrentemente usou é de João Santana, marqueteiro do PT.

Este marco divisório radicaliza o “Nunca antes nesse país”, ou “Os outros são farinha do mesmo saco”. São falas excludentes. O suporte intelectual dessas raias é oferecido por Marilena Chauí: “Eu odeio a classe média.” (https://goo.gl/zEUJ1d).
 
“A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista; é uma abominação ética, porque ela é violenta; é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante.” A fala destila rancor ao outro, embora refira uma ideologia de “lugar social”.

O charme artístico vem de Leticia Sabatella, injuriada por direitistas: “O que eu senti daquelas pessoas foi pena. Porque eu vi, assim, nossa… que abismo. Que falta de empatia, de conexão com o que é verdade, inclusive” (FSP, 03dez17).

A atriz arremata: “Eles estão acreditando numa lavagem cerebral”. Eu diria: “Eles” só acreditam noutra coisa; “eles” são coxinhas; “eles” não são mortadelas. “Eles” pensam diversamente e têm esse direito. Letícia, desconfia das “verdades”.

As marcas presunçosas da posse da razão geram ódio. Geramos um especialista nos piores ódios: Jair Bolsonaro propõe abertamente violência institucional, tortura, morte. Propõe o retorno da Ditadura. Quer matar FHC (https://goo.gl/dR9zuo).
 
Letícia, esquerda tem outra tarefa: a persuasão. A direita classe média brasileira vive a nostalgia de um lugar perdido, lugar que nunca existiu. A esquerda, contudo, responde com um “discurso de autoridade” suposto por si mesma superior.

Pomo-nos entre autoritarismos: o retorno à Ditadura e sua brutalidade que não admite contestação (fala do general Geisel), ou a “certeza” de fins com quaisquer meios que a esquerda oferece, sem discussão, como salvadora do futuro.

Nas democracias estabelecidas, as partes do processo sabem que vivem um presente imperfeito, que nunca tiveram o passado ao qual querem retorno (a direita), que não construirão o futuro que pressupõem e que prometem (a esquerda).

E haverá conflitos, necessários ao engendramento da vida democrática. Ou então será tirania. Na democracia, todos terão argumentos, ninguém terá razão. A democracia equilibra-se sobre um consenso possível e sempre provisório.

A convivência pacífica de uma nação é suportada unicamente em consensualidades obtidas por meios persuasivos. A vida democrática é mais do que a vitória eleitoral. A maioria numérica é insuficiente para legitimar gestos de governo.

Então, para quem almeja as generosidades da vida em comum, não tem cabimento o “nós e eles”, não são pertinentes as declarações rancorosas. Não cabe dizer que o pensamento do outro adveio de “lavagem cerebral”.

Cara Leticia, a gritaria toda com que pessoas pouco lhanas te insultaram é mesmo uma coxinhice. Mas, atenção, o Brasil não quer mortadelice. Não podemos nos reduzir a coxinhas versus mortadelas. Somos mais e melhores do que isso.

Vê, Leticia, os brasileiros confiaram na esquerda, mas a esquerda se consorciou com a pior direita; vê que a esquerda e a direita se mancomunaram para roubar. Governo de ladrões: acumpliciaram-se, roubaram, depois brigaram.
 
Estamos numa quadra interessante: fazendo política, declaramos nojo aos políticos; desejando honestidade, desculpamos os “nossos” bandidos; pedindo democracia, tratamos o adversário como inimigo e queremos silenciá-lo. Não dá.

Temos que nos persuadir, formar consensos de convivência. Deve existir direita não violenta, esquerda sem desdém. O povo deseja um Brasil melhor. À gente toda, Leticia, tem-se que ouvir, sem exclusão. Ah!, logo haverá eleições.

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