quinta-feira, 25 junho , 2026

Lula e a “resistência”: glorificação e derrota

Ninguém domina a borda de aleatoriedade que um gesto encerra. A opção de Lula por alongar a sua própria entrega à Polícia Federal foi uma atitude política bem medida, com repercussões tanto a seu favor quanto a seu desfavor.

A transmissão pública dos acontecimentos foi espetacular como gozo estendido para a sua plateia: o homem sacrificado; foi igualmente espetacular como gozo para os seus depreciadores: agonia longa para o ex-presidente a caminho do cárcere.

Lula conduziu a seu gosto – e para seu regozijo – uma “resistência” à ordem judicial de entregar-se à Polícia. Mas Lula, à sua revelia, propiciou exultação aos seus “inimigos”, que saborearam (um tanto doentiamente) o seu “calvário”.

Para os petistas, Lula ofereceu-se em holocausto pela “causa do povo”; para os antipetistas, Lula cometeu uma última ilegalidade ao descumprir a ordem do Poder Judiciário, que foi magnânimo ao aguardar por sua vontade impertinente.

Ninguém convencerá ninguém, pois já não se argumenta sobre o assunto, mas insulta-se. E nem se insultam ideias, mas pessoas: “fascistas” de ambos os lados detratam interlocutores, não pensamentos.

Há algo de bom nisso: os brasileiros, talvez tocados pela proposta de retórica irresponsável do Lula do “nós contra eles”, desde os rescaldos da Ditadura de 64, não tomavam posição. Agora tomaram: nós, a favor; eles, contra.

Posições vazias de conteúdo, todavia. Nos antilulistas encontro ódio de classe e falta de noção de História. Apesar de as jactâncias de Lula dividirem o Brasil em antes e depois dele, não se pode responsabilizá-lo pelo todo dos nossos males.

Com mentalidades de direita coxinha há pouco que conversar. “Esquecem” que Lula só é responsável pelas velhacarias da sua turma. “Deslembram” que nos 500 anos anteriores ao lulismo também se fez muito pouco pelo povo brasileiro.

Mas uma certa mentalidade de esquerda mortadela igualmente, na mesma medida, é falta de argumentos no suporte à sua moral seletiva. Há fatos incontestáveis a serem considerados, os quais são interesseiramente olvidados. Digo alguns:

A execrada Lava-Jato presidida pelo tão odiado quanto amado juiz Moro reembolsou o erário em bilhões de reais. É dinheiro ressarcido por quadrilhas. Quadrilhas que se formaram no governo Lula, composta por gente de sua confiança.

A investigações sobre os crimes petistas trazidas ao julgamento de Moro não eram conduzidas por ele. Aliás, a essas investigações Moro nem sequer tinha acesso. Foi a Polícia Federal chefiada por um petista que colheu material de provas.

Os processos que envolvem o ex-presidente alcançam, todos, as barras do STF e do STJ. Cerca de 90% dos membros desses Tribunais são nomeação de presidentes petistas. Eles seriam suspeitos para os petistas que os nomearam?

As estruturas de poder dos governos petistas fundaram-se sobre o pior das oligarquias corruptas brasileiras. As bases que compunham os governos Lula e Dilma são a mesma base que veio compor o governo Temer.

Temer, hoje xingado por sua trajetória, sempre foi sócio político de Lula no submundo político. E não só: Renan, que os petistas têm como o que há de pior, recentemente compartilhou palanque com Lula. Dialética do necessário?

O PT judicializou a política brasileira, levando suas derrotas no Congresso Nacional à apreciação dos juízes do STF. A pauta da Câmara dos Deputados, sobretudo, era “revista” no Supremo a cada insucesso dos petistas.

O petismo deu início ao “costume” de pedir impeachment. São dezenas, na esfera nacional e nos estados. Foram e são useiros do recurso. Quando Dilma sofreu o que tanto propuseram, nomearam o seu próprio “método” de “golpe”.

Os petistas estão vítimas dos vícios das nossas relações políticas. Tristes vícios que apreciaram, repetiram, ampliaram e sofisticaram. Roubalheira, sobretudo. Essas coisas que sempre tivemos não foram melhoradas nos governos do PT.

Sem essa de “mancomunação da mídia com o Judiciário”. Depoimentos de dirigentes petistas em processos legais confirmam o assalto. Vale lê-los e formar convicção própria sobre tudo isso. Ou ser torcida, massa de manobra, multidão.

Lula promoveu um espetáculo político com a sua “resistência”. Um ato de manter os seus. O petismo gostou. As relações de poder, contudo, têm sua própria lógica. Não sei se elas gostaram.

A cena foi glorificação, mas também foi derrota.

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