sexta-feira, 2 outubro , 2026

Marielle, crime de opinião

Coerência – refiro a coerência pessoal – é o nexo entre as ideias e os discursos relativos e as práticas da vida privada ou pública. Na vida privada não escapamos da incoerência; na pública, a coerência é compromisso.

Político brasileiro tem baixa coerência. A concernência entre ideias, discursos, filiação partidária, compromissos programáticos, práticas governamentais e posturas na vida privada ou pública de um político é praticamente nenhuma.

Talvez a dissonância dos políticos seja consonante com o comportamento da grande parte dos eleitores: reclamantes de uma ética de dever ser, são traidores, em cada eleição, do imperativo categórico (Kant) que verbalizam.

Eu não simplificaria essa relação nos termos em que Joseph-Marie Maistre o fez em 1811: “Cada povo tem o governo que merece”, mas escolhemos maus governantes ao tempo mesmo em que deles cobramos bom governo.

Pautamo-nos politicamente além do princípio da ética (Além do princípio do prazer, Freud), como se tivéssemos um gozo no desprazer que advém da insistência em votar sempre nuns tipos suspeitosos com desserviços provados.

Maistre, contrário à participação do povo nos processos políticos, acreditava que a ignorância popular conduzia necessariamente às más opções, as quais recaiam, em suas piores consequências, sobre esse mesmo povo eleitor.

Não é uma equação de fácil deslinde. De toda forma, o voto é uma ferramenta de escolha política, então, do bem usá-lo, ou não, virão implicações. É da vida. E a vida é o saber equilibrar-se entre escolhas e consequências (Sartre).

Entre nossas piores tradições está o culto à ambiguidade. Ideologicamente (no sentido de ideologia partidária) somos escorregadiços, por isso vejo com alguma simpatia a briga raivosa entre mortadelas e coxinhas. São posições, afinal.

Neste país que desconsidera e geleifica conceitos, e em que o poder se arranja por acerto, favor, compadrio, crendices, e corrupções diversas, surge no Rio de Janeiro um grupo de políticos que conceitua e não transige.

Com posições nomeadas, num dos estados mais corruptos da federação, lideradas por Marcelo Freixo, organizaram-se politicamente pessoas que acreditam no dever dizer o que deve ser dito, não o que é simplório e simpático.

Era o time da vereadora Marielle Franco, morta por assunção de posição ideológica, executada por cumprir seus próprios compromissos. A edil foi vítima de crime de opinião. O assassinato buscou o silêncio de ideias.

Ao morrer por posição e ato ideológico no Brasil de tantos políticos com (im)postura e gesto sempre indeterminado, Marielle torna-se símbolo dos que ainda se indignam, mas também é feita objeto de ódio da mentalidade reacionária.

Para os indignados, bandidos executaram Marielle; para o reacionarismo, morreu uma defensora de bandidos. A direita odienta destila ódio; a esquerda oportunista usa o cadáver como palanque para elucubrações conspiracionistas.

A sensatez reconhece um crime político grave: crime contra a Democracia, contra a República, contra o Estado de Direito. As instituições estatais foram postas em um ponto demarcativo entre civilização e barbárie.

A civilização democrática carece de persuasão e legitimação. O que nos subsiste de barbárie mata militantes políticos, jornalistas, radialistas, lideranças sociais. A civilização pede argumento; a barbárie prestigia a jagunçada.

As instituições precisam de circunspecção. Instituições falam por seus representantes. Tenho visto desvairo e demagogia. Os Juízes para a democracia pedem investigação independente para o crime. Sabem que isso não existe.

Uma desembargadora insultou a inteligência média da nação ao afirmar que Marielle estava engajada com bandidos e insinuar que sua morte foi consequência de cobrança de dívidas. Irresponsabilidade barata.

A conclusão da magistrada ademais de irresponsável, é estúpida: “É ‘mimimi’ da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro”. Burrice da “doutora”, não se trata de discutir o cadáver.

Os tiros escreveram linhas na História. Executada a vereadora, sobrevive o exemplo da batalhadora de opinião. Desimporta concordar com Marielle. Importa não esquecer: o Brasil que despreza coerência assassina ideia.

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