Nos anos 70, um livro de capa azulada muito me chamou à atenção comparando diferentes realidades. Tratava-se de um trabalho de engenharia civil da UFRGS, com o título: “Transportes: Alemanha – Brasil”. Ainda criança, não entendia como um país do tamanho do Rio Grande do Sul poderia ter um número muito mais significativo de pontes, túneis, estradas pavimentadas, viadutos, metrôs, ferrovias, aeroportos e portos.
As diferenças eram surpreendentes – linhas de ônibus, vias de acesso, largas avenidas, passeios, parques, alamedas, ciclovias em fotos reais e belos projetos de urbanismo. Com o tempo, fatos relativos ao assunto despertaram mais curiosidade. Por exemplo: em 1950, o trânsito de Chicago era totalmente controlado por computadores; o império Inca possuía cinco mil quilômetros de estradas na América do Sul; Roma, em sua glória, sustentava o progresso do império em milhares de “vias”, que existem até hoje e se espalham por três continentes, isto sem contar o transporte marítimo. E o que teria sido dos EUA não fossem as ferrovias que levavam os pioneiros cada vez mais ao oeste?
Este assunto nunca deixará de ser atual, porque a evolução é inevitável, contínua e, cada vez mais em progressão geométrica. Convivemos diariamente com questões relativas aos transportes e, fundamentalmente, com o transporte nas cidades, que crescem em ritmo acelerado. São evidentes os problemas com a mobilidade urbana, assunto que tem tido recentes estudos e preocupado aos que assistem estáticos o desenrolar do caos. Como pode uma pessoa sair do aeroporto, em Florianópolis, às 16 horas e chegar à BR-101 quatro horas depois em uma tarde de quarta-feira? Em alguns locais da capital catarinense, é quase impossível dirigir durante o dia.
A excelente revista “Força Regional” apresentou importantes dados estatísticos sobre Tubarão. A cidade, que já enfrenta problemas de deslocamento, possuía aproximadamente 27 mil veículos em 2002 e, em 2012, quase 90 mil. Isto em apenas dez anos e, claro, os números estão em contínuo crescimento. Como a infraestrutura do município é praticamente a mesma, esta divergência entre veículos em circulação e vias capacitadas revela-se diariamente. É preciso colocar a mobilidade urbana em prioridade máxima para se atingir um progresso sutentável e mais qualidade de vida na região. Equacionar, equilibrar, analisar limites. Criar novos hábitos, como caminhar, ajuda, mas isto também está complicado, devido à condição de muitas calçadas e passeios; sem falar na falta de educação e respeito de alguns motoristas.
A situação necessita de intervenções e procedimentos. Sabe-se que isto não vai se resolver da noite para o dia, contudo, não se pode mais deixar para depois. Tomara que não tenhamos que assistir o “Ensaio Sobre A Lucidez”, de Saramago, tornar-se realidade e, muito menos, que este impasse seja resolvido pelas vias da ficcção. Dentro do possível, cada um precisa fazer a sua parte. Que tal começarmos hoje?

