O brasileiro sabe, sim, votar muito bem, obrigado, sobretudo devido às melhorias nos índices da educação superior, ao aumento do acesso à informação e à ampliação da consciência política. Em oposição a isso, a opinião corrente – que o eleitor não sabe votar – é fomentada pelas deficiências no sistema político-partidário em vigência. Ainda, há interesse em desviar o foco do debate para uma falsa causa, atribuindo ao eleitor, por suposta má escolha feita nas urnas, a responsabilidade por mazelas perpetradas pelos mandatários.
O excessivo número de partidos políticos, muitos de aluguel, que produzem coligações com dezenas de aliados e desprezam as próprias ideologias, faz com que se perpetuem ou se revezem no poder os grupos, ou “caciques”, de sempre. A submissão dos Parlamentos e de seus integrantes ao Executivo em troca de favores e cargos, loteando a máquina pública e traindo a confiança do eleitor, deteriorou a função do Legislativo, especialmente a de fiscalização, e a credibilidade na classe política.
Esse ambiente pernicioso afasta os bons cidadãos dos debates políticos e também de eles serem potenciais candidatos, pois não querem se macular participando de um sistema comprometido. Em decorrência disso, muitas vezes, esse vácuo é ocupado por pessoas mal-intencionadas.
Assim, por falta de opções e de credibilidade no sistema, é crescente o número de votos brancos e nulos – beneficiando os mesmos políticos de plantão – ou de rejeição e revolta (é o caso de Tiririca). Isso, possivelmente, seja o único erro do eleitor.
Portanto, não se pode atribuir aos brasileiros a responsabilidade pelos maus políticos que elegem, pois lhes faltam melhores alternativas. A depuração do sistema passa, então, necessariamente, pela destinação do voto ao melhor dos candidatos, a despeito de não ser o ideal, e, ainda, por mais envolvimento dos cidadãos com a política, inclusive na fiscalização atenta e permanente do mandato do eleito.
Se o cidadão fiscalizasse, de fato, os gestores públicos e os políticos, indo além de contribuinte e eleitor, a fim de verificar como eles estão gastando o nosso dinheiro e decidindo em nosso nome, pouco importaria o resultado das urnas, pois os atos do escolhido estariam constantemente sob o crivo do eleitor. Dessa forma, no próximo pleito, o eleitor saberia muito bem decidir se o candidato merece ou não a sua confiança – e o seu voto – para ser reconduzido ao cargo ou qualquer outro que viesse a pleitear.

