sexta-feira, 22 maio , 2026

O combate à intolerância começa na escola

Embora sejam coisas distintas, a violência de gênero, a homofobia e o racismo têm em comum o fato de remeterem à negação e/ou tentativa de submissão e anulação do outro. Causas diversas e complexas explicam esses comportamentos intolerantes e opressivos, que são recorrentes em diferentes tipos de sociedades. Só para citar exemplos recentes que chocaram a opinião pública democrática, temos o atentado em Orlando (EUA), onde um homem matou 50 pessoas em uma boate gay; o estupro coletivo de uma jovem ocorrido no Rio de Janeiro; e a violência policial contra os negros e imigrantes, seja nos EUA, no Brasil ou na Europa.

Mas o recrudescimento do machismo, da homofobia e do racismo em várias partes do mundo é um processo relativamente recente e faz parte da reação conservadora ao avanço dos direitos das mulheres, dos negros e da comunidade LGBT ocorrido em grande parte dos países ocidentais a partir das décadas de 1960 e 1970. A duras penas e em diferentes graus, os movimentos feministas, antirracistas e LGBT de diversos países – inclusive o Brasil – conquistaram avanços na igualdade jurídica das mulheres, o reconhecimento de uniões homoafetivas e projetos de ação afirmativa, entre outros. 

Após um período de relativo recuo, grupos conservadores, na esteira da crise econômica iniciada em 2008, retomaram a ofensiva contra os direitos desses segmentos, histórica e socialmente vulneráveis. Somaram-se conservadorismos distintos, mas complementares como, por exemplo, pautas relacionadas ao controle do comportamento com pautas defendidas por grandes corporações e oligopólios. Uma das razões para a força dessa ofensiva conservadora, pelo menos no Brasil, é o fato de os setores democráticos terem negligenciado um dos aspectos fundamentais para a ampliação do processo de inclusão que é a necessidade de se criar, via educação, uma sólida cultura de paz e tolerância. 

Veja-se, por exemplo, o atual Plano Municipal de Educação (PME) de São Paulo, que, apesar de avançado em alguns aspectos, é omisso na proteção dos direitos humanos, pois exclui discussões sobre gênero e sexualidade. Ora, se o preconceito e a intolerância não são combatidos já nos bancos escolares, a violência contra mulheres, negros e LGTBs se perpetua. Essa violência e intolerância começam nas próprias escolas. Segundo o estudo Violência contra a mulher no ambiente universitário, divulgado pelo Instituto Avon no ano passado, nada menos que 7% das universitárias brasileiras afirmam que foram drogadas e forçadas a ter relações sexuais nas dependências das escolas. 

Outra pesquisa de 2015, intitulada Juventudes na Escola, Sentidos e Buscas: Por que frequentam?, realizada com o apoio da Flacso-Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), OEI (Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura) e do MEC (Ministério da Educação), comprovou que quase 20% dos estudantes de escola pública entre 15 e 29 anos não gostariam de ter um colega de classe travesti, homossexual, transexual ou transgênero – sendo que, no caso dos meninos, este percentual sobe para 31%.

Esse é o pano de fundo que explica o fortalecimento das pautas conservadoras na sociedade como um todo e, mais especificamente, em instituições políticas como o Congresso Nacional, onde uma aliança da bancada evangélica neopentecostal e de grupos de extrema-direita tenta impor uma agenda retrógrada, buscando solapar conquistas históricas recentes de mulheres, dos LGBT e dos negros. Tudo isso alimentado pelo discurso machista, homofóbico e racista dos Bolsonaros e Felicianos. Além de se mobilizar contra essa perigosa ofensiva reacionária, os setores democráticos devem repensar suas estratégias de combate à intolerância e ao preconceito. É fundamental o poder público priorizar a criação de uma cultura de paz e democrática, incluindo-a nas escolas (fundamental até a universidade). Pois, como dizia Anísio Teixeira, a escola, principalmente a pública, é a máquina que prepara a democracia. 

 

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