Na década de 60, dizem os mais antigos, chegou um circo numa pequena cidade do interior do nordeste brasileiro. O espetáculo era bem simples, assim como toda a estrutura circense. Era início de fevereiro, o prefeito da cidadezinha havia assumido recentemente sua primeira vez no comando da administração pública local, e os cargos de confiança ainda estavam sendo distribuídos entre a coligação vencedora do pleito.
No circo, as maiores atrações ficavam por conta dos palhaços, malabaristas, o homem que cuspia fogo, e a maior de todas as atrações: dois jumentos que faziam a alegria da garotada.
Certo dia, os jumentos cansaram-se daquela vida de trabalhos forçados, onde a única recompensa se materializava em alfafa e capim, que os tratadores davam nos finais das apresentações. Combinaram escapar do circo para tentar a vida noutro lugar, onde não seriam mais forçados a trabalhar sem nenhum direito.
– Para onde vamos fugir? – perguntou um asno para o outro.
– Ainda não sei, mas temos que seguir cada um para um lado. Precisamos tomar caminhos opostos, assim os humanos terão dificuldades para nos recapturar – disse o jumento esperto, para o burro desorientado.
No breu da noite, aguardaram o momento oportuno e na calada da madrugada galoparam fugindo em alta velocidade pelas ruas da cidade em busca da liberdade. Depois que estavam bem longe dos domínios do circo, cada um traçou um caminho. Um dos jumentos seguiu para as matas fechadas que predominava na região, o outro ficou na cidade.
Seis meses depois, o jumento que fugiu para as matas foi encontrado pelos donos do circo. O bicho estava em situação precária, passou muita fome no tempo em que ficou foragido, visto que não encontrava comida suficiente para sobreviver sem ajuda dos humanos. Voltou para o circo.
Dois anos e meio depois, o outro asno que ainda estava desaparecido retornou ao circo espontaneamente, reencontrando o amigo na jaula. Diferente do primeiro jumento, que voltou debilitado, o segundo chegou forte e robusto. Isso intrigou seu companheiro.
– Eu fiquei seis meses na floresta e tive que pedir arrego, cheguei aqui magro e fraco, não consegui encontrar comida suficiente para me alimentar sozinho. A vida lá fora foi pior para mim do que aqui dentro. Ao contrário de você, aparentemente se deu bem e provavelmente estava num bom lugar. Por que regressou para o circo?
– Quando eu fugi para a cidade, não sabia onde me esconder. Vi a porta de uma repartição pública aberta e fui logo entrando. Entrei numa sala onde tinha uma poltrona confortável vaga, em cima da mesa estava uma plaquinha escrita: cargo de confiança. Fui logo sentando e fiquei ali todos esses últimos anos ocupando a vaga.
– Nenhuma pessoa percebeu que era um jumento sentado na poltrona exercendo a função? – perguntou o burro que se frustrou na fuga.
– Não. Por muito tempo, ninguém reparou que eu era um animal. O pessoal lá da repartição é meio desligado.
– Por que você voltou se estava se dando bem entre os humanos e não foi reconhecido como jumento?
– Aí é que está o problema, quase ninguém reparou que eu sou um burro, só uma pessoa que percebeu. Fui exonerado na reforma administrativa. O prefeito me reconheceu.

