sábado, 26 setembro , 2026

O Mecanismo, a esquerda autoritária, os seus ladrões

H á quem se coloque (ou esteja colocado) na vida como em guerra de posição (ainda que pouco saiba sobre hegemonia cultural). Falo sobre fazer torcida por um grupo de poder como o faz um sectário, não como o faria um intelectual.

Nos estados atuais, as estruturas da sociedade civil têm vida própria e não se curvam facilmente aos discursos que não legitimam propostas de organização social, mas intentam interditar narrações que alcançam circulação.

A esquerda brasileira (que, em sua realização concreta, é autoritária, religiosa e ladravaz, portanto de “práxis” direitista), brandindo uma palavra de ordem, fascista, fascistamente quer calar a boca de quem se lhe discrepe.

Tal pretensão satisfaz certos grupos de si para si mesmos, mas não obterá sucesso em elidir fatos. A operação Lava Jato é um evento social materialmente verificável. Esse processo já devolveu bilhões aos cofres públicos.

“MPF recupera R$ 11,9 bilhões com acordos. O montante calculado pela força-tarefa a ser ressarcido aos cofres públicos é de R$ 44,4 bilhões” (Fernanda Odília encurtador.com.br/kuCHJ). Bastam, pois, olhos de querer ver.

O objeto do processo é um esquema de ladroagem que foi montado sob predomínio da esquerda brasileira. O esquema, sob o nome de O Mecanismo, tornou-se série policial da Netflix, criada por José Padilha e Elena Soárez.

A indústria cultural converteu em entretenimento algo caro à esquerda patrimonialista. Aliás, a indústria cultural, no Brasil, é um esquema, em grande parte, atrelado a arranjo de favores públicos (farto financiamento de estatais).

As críticas de esquerda ao O Mecanismo são censoras. Consideraram a série policial como sendo política e dirigida contra seus líderes Lula e Dilma (a esquerda brasileira pratica culto à personalidade), abominando-a.

Na série, um policial de métodos “puros” insurge-se contra as formas institucionais de fazer justiça e converte-se em justiceiro, perseguindo um personagem que, ademais, teria tido um caso juvenil com sua esposa.

O vingador vai às últimas consequências pessoais ao tempo mesmo em que alimenta secretamente de informações a Polícia Federal, propiciando a derrubada de um mecanismo que toma todo o mundo político.

Está claro que a série é sobre a Lava-Jato, e a esquerda brasileira não tem como não se ver nela, pois a narrativa da ficção é baseada na realidade de um sistema de rapinagem montado sob os governos de Lula e Dilma.

Mas a ficção não se resume a isso. É uma coisa de mocinho e bandido: a Polícia Federal (uma delegada e poucos policiais) versus o mundo político. Sem concessões a quem quer que seja, alcança Lula, Dilma, Temer, Aécio.

A série simplifica as relações de poder corruptas que movem o Brasil. Claro, faz cinema, acelera as coisas para tornar-se atrativa. Mas, se há dramatizações, não há invenções. São fatos conformados a drama cinematográfico.

José Padilha tem história à esquerda, com o seu cinema fez denúncias importantes, com risco, inclusive, da própria vida. A irracional tentativa petista de linchá-lo é um desesperado exercício de controle autoritário.

A esquerda não se pode dar licenças de direita. A esquerda não pode atuar autoritariamente, formulando discursos censores. A esquerda tem que se obrigar à análise da história, antes de tudo, reconhecendo-a.

A esquerda que alcançou o poder traiu-se e traiu o povo que nela confiou. Uma série televisiva que explicita seus métodos e expõe seus atores deveria ser uma ferramenta de reflexão, não objeto de raivosa censura ideologizada.

No mundo democrático, sobretudo depois das mídias sociais, que para o bem e para o mal põem tudo em circulação, resolve pouco dizer que O Mecanismo cumpre papel enganoso. Basta assistir à série, ela falará por si mesma.

A esquerda tem que se esquerdear, franquear-se democrática, guerrear posições por persuasão. Tem que discursar seu credo e compromissar-se com ele. A esquerda não pode roubar e depois censurar a filmagem dos seus ladrões.

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